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Jogo dos Contrastes

Ontem não vi dois jogos que queria ter visto: Brasil versus EUA no mundial de futebol feminino e River Plate versus Botafogo.

No primeiro, os melhores momentos mostram a magia do futebol. Não preciso falar de como joga a maior craque do mundo, Marta. É simplesmente a prova de que ainda há gênios no futebol.

No segundo, o resultado foi o maior vexame do ano. Depois de estar à frente no placar por duas vezes com um jogador a mais, o time brasileiro conseguiu perder o jogo por 4 a 2 e ainda por cima a vaga na próxima fase. E pensar que acreditei no Botafogo para esse ano.

Minha primeira leitura de Chesterton, hoje à tarde:

There has appeared in our time a particular class of books and articles which I sincerely and solemnly think may be called the silliest ever known among men. They are much more wild than the wildest romances of chivalry and much more dull than the dullest religious tract. Moreover, the romances of chivalry were at least about chivalry; the religious tracts are about religion. But these things are about nothing; they are about what is called Success. On every bookstall, in every magazine, you may find works telling people how to succeed. They are books showing men how to succeed in everything; they are written by men who cannot even succeed in writing books. To begin with, of course, there is no such thing as Success. Or, if you like to put it so, there is nothing that is not successful. That a thing is successful merely means that it is; a millionaire is successful in being a millionaire and a donkey in being a donkey.

Tendo a frase final em mente, eu diria que este blog é um sucesso.

E pensar que o tal de Chesterton publicou isso em 1909.

o inventor do marxismo

“Ele estava causando problemas sociais. Estava divulgando idéias de igualdade entre os cidadãos, à frente da ideologia conformista de aceitação do domínio político de uma elite. Portanto, foi caçado, preso, julgado e massacrado até sua morte. A grande ironia é que este lutou contra o dinheiro, e foi entregue justamente por um ganancioso, um traidor que ao ver o tamanho de seu pecado, enforcou-se.”

Quer ser marxista? Pode começar sendo cristão - depois você troca de Deus e vive lutando pela igualdade dos cidadãos. Hoje em dia, em que as neo-igrejas assimilaram tão bem o “time is money” - comprando tempo na TV para divulgar seus cultos -, talvez a alternativa seja adorarmos Marx como um Deus. Não faço isso, mas há quem faça. Marx era um pouco ingênuo quanto a si mesmo; Jesus em nenhum momento o foi, como prova minha recente leitura do Evangelho.

whispering thoughts

Sentir-se solitário é bom, mas é sempre um mau sinal quando se sabe que está errado. Sim, errado, no sentido mais moralizante possível. É sinal de que sua solidão não é pura - os espectros de outros vivem. Pode ser que venha daí o terror que inspiram as aparições; tão reais quanto se imaginam, fornecem as bases do desespero ao estarem presentes apenas na nossa própria figuração.

a originalidade é quimera

And I say to mankind, Be not curious about God,
For I who am curious about each am not curious about God,
(No array of terms can say how much I am at peace about God and about death.)

I hear and behold God in every object, yet understand God not in the least,
Nor do I understand who there can be more wonderful than myself.

Walt Whitman em Song of Myself. Fernando Pessoa, como se vê, não é tão original quanto faz supor o encantamento com que as pessoas lêem Alberto Caeiro.

Só para comentar,

os jogos de futebol de hoje em dia são meio sem graça. Mas ontem assisti Barcelona e Lyon e me surpreendi lamentando um gol não feito. Não torço para o Barcelona, mas achei maldade que a bola não tivesse entrado. Soltei um palavrão. Notei que não estava torcendo por um time - estava torcendo para mim mesmo. Para que eu tivesse a oportunidade de ver um lance bonito. Depois o jogo ficou mais sem graça e li alguns poemas de Wallace Stevens com a TV ligada. Segue a vida.

Notícias Desportivas

Duas coisas curiosas:

A primeira - um goleiro fazendo gol aos 23 segundos de jogo.

A segunda - um anão desmontando o beisebol.

A primeira é gentileza. A segunda é sacanagem.

unfinity

Ultimamente poucos autores conseguiram me fazer sofrer: meu jeito meio leviano de ler os livros acabou por transformar alguns textos sombrios (no melhor sentido da palavra) em comédias; tudo é engraçado, tudo é divertido. Mas existem alguns que escapam à regra. Em geral são dramaturgos.

Falar de Samuel Beckett, por exemplo, é um prazer. Mas sempre muito perturbador. Sinto, ao me lembrar de Endgame, que há momentos meio ruins na existência. Curioso que Beckett também me faça rir nesta peça, mas é um riso nervoso, alterado, daqueles que sabe o próprio despropósito.

Exemplo pequeno:

CLOV (anguished, scratching himself):
I have a flea!
HAMM:
A flea! Are there still fleas?
CLOV:
On me there’s one.
(Scratching.)
Unless it’s a crab louse.
HAMM (very perturbed):
But humanity might start from there all over again! Catch him, for the love of God!
CLOV:
I’ll go and get the powder.
(Exit Clov.)
HAMM:
A flea! This is awful! What a day!
(Enter Clov with a sprinkling-tin.)
CLOV:
I’m back again, with the insecticide.
HAMM:
Let him have it!

Se alguém ler nisso e só vir algo de farsesco, eu desisto de me fazer entender. O que pode viver tranqüilo depois disso? Nothing, and be silent.

Paulo Honório:

Não gosto de mulheres sabidas. Chamam-se intelectuais e são horríveis. Tenho visto algumas que recitam versos no teatro, fazem conferências e conduzem um marido ou coisa que o valha. Fazem bonito no palco, mas intimamente, com as cortinas cerradas, dizem:
- Me auxilia, meu bem.

(S. Bernardo, Capítulo XXV)

Nietzsche já deve ter dito:

A melhor mentira é aquela que desmente todas as outras. E a verdade? Há quem diga que a verdade é uma só, e deve ser mesmo – escondida, presa dentro de uma caverna terrível, distante do alcance de qualquer ser humano.

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