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um ator

Demand me nothing: what you know, you know:
From this time forth I never will speak word.

Quisera eu terminar todas minhas falas não com estes dois versos, mas com o sentimento semelhante ao de Iago ao pronunciá-los. Enquanto Othello se desespera com o crime cometido - matara Desdemona e se suicidaria logo após -, os outros personagens reconhecem em Iago o símbolo do mal, começam a se perguntar sobre as razões para que um alferes tão leal tenha resolvido trair o próprio senhor e induzi-lo ao assassínio. Não há explicação além da mais simples que posso imaginar: é a cena, é a peça que exige de Iago tal perfídia. Ele está na peça, rouba a cena, mas a peça assim lhe fez, e ele assim lhe faz. O fim da peça só poderia ser este: Iago será preso, julgado, enforcado; seu crime marcará o tempo; and nothing more.

Demand me nothing: what you know, you know:
From this time forth I never will speak word.

Arquivos

A ausência deste blog por um tempo foi justificada por uma passagem de uma semana em São Paulo que realizei de terça-feira a terça-feira passadas. Inclusive, nesta última terça, precisei levar meu computador de São Paulo para Sorocaba, devido a problemas técnicos. Curiosamente, este computador esteve por um ano - ou mais - desconectado da Internet, sendo utilizado apenas para o digitar de alguns trabalhos de faculdade. Toda esta introdução se faz necessária para explicar o tamanho de minha surpresa ao, remexendo nos arquivos deste computador, encontrar projetos bastante antigos de blogs e literaturas, coisas que ficaram apagadas e das quais talvez eu jamais me lembrasse não fosse a curiosidade hostil que exerci sobre algumas pastas misteriosas do disco rígido. Entretanto, poucos arquivos continham efetivamente alguma coisa, pois estavam muito mais repletos de sonhos e esquemas do que qualquer obra fechada. Todos os defeitos de meus planejamentos se verificavam ali: o primeiro, e mais grave: sempre acredito que irei me lembrar de tudo que imagino e por isso reduzo minhas idéias às frases mais sintéticas e essenciais, sem expor a mim mesmo os caminhos do raciocínio. O leitor pode considerar isso de certa forma algo benéfico, pois seria uma limpeza de pensamento a que poucos aspiram e menos pessoas ainda atingem. Entretanto, só posso me lamentar; encontrando apenas a síntese meio rarefeita, não posso fazer nada mais com aquele fragmento além de repisar-lhe a verdade e incorrer nas mais cruéis tautologias.

O segundo e o terceiro defeitos de meu planejamento podem ser vistos a partir da análise de um desses fragmentos sintéticos:

Talvez fosse este o motivo que dava tal semblante ao homem: era um ritualista, sabia o que ocorreria. Já fizera aquele ritual do lado oposto; recordava-se: era mais fácil. Se a salvação da tribo passa por um sacrifício, ele o aceita de bom grado. Não há dúvida para quem retorna.

Nota-se claramente a inocência de uma criança nestes escritos que consideram ser preferível o “terror conhecido” ao “terror desconhecido”, como se o choque que se sente da primeira vez com algo sempre fosse decrescente, tornando-se em algum momento quase inócuo. Ou melhor, não exatamente “quase”: “não há dúvida para quem retorna”. Voltando a este texto, tenho muitas dúvidas e, devo dizer, sinto um choque cada vez maior do que sentiria da vez anterior. Por fim, nada de muito belo vem deste trecho. Notem a deselegância da passagem; parece ter sido escrita às pressas, embora eu tenha quase certeza de que meditei um bocado para escrevê-la; servem de provas para tal hipótese a presença de uma pontuação significativa, algo que não consegui tão facilmente em nenhum de meus textos, mesmo os de três anos atrás.

Ainda tento retirar algum significado de cada uma das palavras que escrevi, mesmo as mais simplórias, mas acredito ter chegado a uma conclusão nada animadora: é possível encontrar quaisquer conjeturas nestes pequenos trechos, por mais fracos que sejam, e relacioná-las infinitamente com todas as outras frações que reconhecermos como existentes e possíveis. Caso um tal trecho não seja reconhecido como existente e possível, torna-se algo de tão original que se funde ao autor de maneira inextricável, e o autor torna-se a mediação para as coisas existentes e possíveis; caso não exista autor, o texto pode fundir-se a um Zeitgeist específico e, enfim, integrar-se: as coisas do universo aspiram à esta integração que nem sempre é desejável: eu, por exemplo, não desejo tais fragmentos e por isso não lhes reconheço existência própria: serão para sempre somente meus erros.

pensei na rua, ao pular do ônibus:

Mulher alguma ficará bela em um vestido de noiva.

Os dois reis e os dois labirintos, conto de Borges

Contam os homens dignos de fé (Alá, porém, sabe mais) que nos primeiros dias houve um rei nas ilhas da Babilônia que reuniu seus arquitetos e magos e os mandou construir um labirinto tão incerto e sutil que os varões mais prudentes não se aventurariam a entrar, e os que entrassem se perderiam. Esta obra era um escândalo, pois a confusão e a maravilha são operações próprias de Deus, e não dos homens. Com o andar do tempo, veio à sua corte um rei dos árabes, e o rei da Babilônia (para fazer chacota da simplicidade de seu hóspede) o fez penetrar no labirinto, onde vagou ofendido e confundido até o declínio da tarde. Então implorou por socorro divino e encontrou a porta. Seus lábios não proferiram nenhuma queixa, mas disse ao rei da Babilônia que tinha um labirinto melhor na Arábia e que, se Deus era servido, o faria conhecê-lo algum dia. Retornou à Arábia, reuniu seus capitães e seus alcaides e destruiu os reinos da Babilônia com tão venturosa fortuna que derrubou seus castelos, dividiu sua gente e fez ao mesmo rei prisioneiro. Amarrou-o em cima de um veloz camelo e levou-o ao deserto. Cavalgaram três dias, e disse-lhe: “Ó, rei do tempo e substância e cifra do século! Na Babilônia, quiseste fazer-me perdido em um labirinto de bronze com muitas escadas, portas e muros; agora o Poderoso quis por bem que te mostre o meu, onde não há escadas a subir, nem portas a forçar, nem fatigantes galerias a percorrer, nem muros que te impeçam o passo”.

Então desatou-lhe as mãos e o abandonou no meio do deserto, onde morreu de fome e de sede. A glória esteja com Aquele que não morre.

Este é um dos mais curtos contos de Jorge Luis Borges, presente em El Aleph. Ao lê-lo tive vontade de traduzi-lo, por seu tamanho reduzido (o que facilita minha empresa), singeleza (que cria a vontade de que todos o conheçam) e complexidade (que permite que cada um conheça um conto diferente do que eu conheci). Espero ter feito um trabalho aceitável.

Natal

Passei o Natal em casa de minha tia. Meu primo acaba de ser pai - um belo menino, de seus quase três meses. E todos, todos que o vêem, ficam paparicando a criança. Num momento notei que, se eu fosse o pai, não ia gostar nada de tanta gente em cima de meu filho, principalmente fazendo caretas e falando num miguxês apequenado. Acho que se tiver um filho vou me esconder dos parentes por uns cinco anos com ele. Ou no máximo visitas breves, sei lá. Comentei com minha mãe e tive aprovação. O único risco é se depois o pirralho não gostar tanto dos parentes quanto gostaria se tivesse contato desde o berço. Mas é um risco pequeno - criança, quando quer, gosta.

Отец Сергий

No dia de meu retorno a Sorocaba, 21 de dezembro, acabei por ler uma novela de Tolstói, durante a viagem, chamada Padre Sérgio. Impressionou-me a capacidade do autor de mostrar que, por mais que tentasse, o referido Padre Sérgio jamais conseguiria, por melhor que fosse seu ímpeto, impedir que sentimentos mundanos se sobrepuzessem às suas aspirações de viver dedicando-se a Deus. O herói, desde o início da novela, caracteriza-se por ser orgulhoso e de ambição perfeccionista. Entretanto, jamais se realiza em alguma atividade, rejeitando a alta sociedade, o monastério, a vida como eremita, apesar de tudo que faz para tentar chegar até cada um destes patamares. No fim, acaba por se redimir ao notar que não vivia para Deus, e sim para os outros, o que o tornava falho e inconcluso. Parou de considerar as opiniões dos outros e passou a viver peregrino, conformando-se com as chacotas e bravatas dirigidas à sua pessoa. Tornou-se, enfim, na hagiografia proposta por Liev Tolstói, um quase santo.

Segundo muitos comentadores, o fim não convence: Tolstói estaria tentando fazer da novela um panfleto para divulgar suas idéias sobre abnegação, humildade e devoção - que no geral se resumiam, em sua conduta particular, a ser um baita egocêntrico, arrogante, de vista obnubilada pela “vã glória de mandar”. Tolstói, em seus escritos religiosos, até transmite alguma esperança de dias melhores, para aqueles que querem se ver no caminho de Deus. Mas não consegue em Padre Sérgio. Quem lê se sente incomodado com o final redentor porque sabe que, depois do final, Sérgio provavelmente se daria conta de que Deus é, para ele, uma pessoa - magnífica, mas ainda pessoa -, uma pessoa que ele estava tentando em vão impressionar. O círculo vicioso não tem fim. Quando passasse a acreditar nisso com todas as forças, veria o motivo de todas as suas ações serem sempre facas-de-dois-gumes, e a vida humana um processo constante do que chamam de razor’s edge, fio da navalha: não há bem, não há mal, há apenas culpa, ou regozijo, do qual o ser se sentirá culpado posteriormente.

Não preciso dizer que saí da leitura um tanto perturbado.

reflexão sobre a faculdade

Curta, esta reflexão. A faculdade é tratada como um lar, um segundo lar, o local onde posso refletir, inclusive acerca da faculdade. Pouco sai destas reflexões que, de alguma maneira, perpetuam-se como perda de tempo. Não mais penso em ganhar tempo com as coisas, por mais que precise disso; mas pensei nesta reflexão como parte de outra reflexão, mais difícil de explicar e menos interessante para o leitor.

explicação

Não pretendia, ao fazer este blog, postar poemas meus. Mas duas reflexões me fizeram alterar esta premissa.

A primeira foi que me conscientizei de que eu morria de vontade de postá-los, e só não o fazia por medo, por vergonha. Medo de ver críticas, vergonha de parecer (ser/estar) um idiota tentando ser poeta. E daí vem a segunda.

Esta, mais serena que a primeira, é simples: não tenho mais pretensão de, um dia, publicar poesia. Nem nada na ordem de literatura propriamente dita. Se eu escrever alguma coisa, será mais para mim do que para os outros (literatura é também para os outros; ficar escrevendo é como jogar videogame). A terra me será leve, e vou à crítica da literatura.

Logo, não deveria haver problemas em postar poemas. É até melhor: se eu não tiver um post pronto, ou idéia, e quiser escrever, pego um poema, dou-lhe um “trato” e jogo aqui. Cão mijando no escuro.

mulher cabralina

Olhar a mulher: sua forma
amplamente disfarçada,
forma completa, revolta,
forma distante, tentada.

Ouvir a mulher: empresta,
no falar, gestos aos sons,
trejeitos de partitura,
de seus tons e semitons.

Sentir a mulher: seu odor,
fato marcante, de frutas;
engrenagem nas narinas,
cheiro de flores ocultas.

Tocar a mulher: àqueles
que vêem, escutam, respiram,
pouco resta por fazer;
ao ser sonhado atingiram.

Portugal, 11 de junho de 1915

Por esses dias me lembrei disto:

De aqui de Portugal, todas as épocas no meu cérebro,
Saúdo-te, Walt, saúdo-te, meu irmão em Universo,
Eu, de monóculo e casaco exageradamente cintado,
Não sou indigno de ti, bem o sabes, Walt,
Não sou indigno de ti, basta saudar-te para o não ser…
Eu tão contíguo à inércia, tão facilmente cheio de tédio,
Sou dos teus, tu bem sabes, e compreendo-te e amo-te,
E embora te não conhecesse, nascido pelo ano em que morrias,
Sei que me amaste também, que me conheceste, e estou contente.
Sei que me conheceste, que me contemplaste e me explicaste,
Sei que é isso que eu sou, quer em Brooklyn Ferry dez anos antes de eu nascer,
Quer pela Rua do Ouro acima pensando em tudo que não é a Rua do Ouro,
E conforme tu sentiste tudo, sinto tudo, e cá estamos de mãos dadas,
De mãos dadas, Walt, de mãos dadas, dançando o universo na alma.

Não sei porquê, mas me lembrei.

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