Desdicha
Nota introdutória:
O autor das seguintes páginas não é conhecido e estas não estavam numeradas. Como é impossível afirmar a ordem desejada, esta será a mesma da pasta em que foram encontradas: uma ordem estranha, sem dúvida, mas perfeitamente apreensível. Pensamos que o conto (como foi planejado) tenha sido escrito em sua quase totalidade – isso se suas aparentes lacunas não forem, na verdade, completudes em si. Alguns trechos estavam redigidos em espanhol ao lado, mas preferimos não reproduzi-los: eram trechos de tradução literal, palavra por palavra.
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Um ano antes de sua morte, Leonardo estava já completamente louco. Fui visitá-lo em uma noite de sexta-feira, e levei um susto ao ver seu quarto. Mostrou-me, quase indiferente, uma quantidade inacreditável de fotocópias do conto, todas tomadas por dezenas de anotações em letra miúda. Havia seis exemplares das Obras completas; algumas antologias de contos latino-americanos em diversos idiomas, todas contendo Desdicha, assinalado com um X em todos os índices; edições menores da obra, inclusive o jornal El País que publicou o conto por ocasião da morte do autor, “grande contista, embora inédito”, com diversos erros tipográficos; todo tipo de exegese crítica feita sobre o conto ou sobre a obra completa, ou mesmo sobre outros contos de Noriega. Tudo isso extremamente anotado, destrinchado e plenamente pesado e considerado por Leonardo, seja a lápis, a caneta, a pena, ou até mesmo por meio de recortes e colagens: nada parecia ter escapado a meu amigo, que orgulhosamente exibia a impraticabilidade de seu objetivo.
Perguntei-lhe se conseguira realizar algo sobre o conto, além de anotações e sacrifícios. Disse-me que sim, e entregou-me uma pasta, repleta de textos escritos à mão, com vários rabiscos visíveis. Conversamos a respeito de amenidades, mas não me demorei – estava curioso para ver o que Leonardo tirara de tantos anos de dedicação.
Eram dezesseis ensaios críticos sobre o conto, cada um com um título e uma orientação crítica diferente; três contos, com algumas semelhanças entre si, todas derivadas do próprio Desdicha: do primeiro gostei, dos outros dois, não; cinco montagens de poemas baseadas em algumas palavras-chave do conto, todos em espanhol e com títulos sinônimos do título da narrativa; um catálogo das referências à natureza feitas no conto; e, por fim, um pequeno diário de trabalho onde Leonardo comentava a dificuldade de realizar cada uma das peças, em especial os ensaios de números 6 e 9 (numeração feita por mim). Era material suficiente para um livro, sem dúvida, mas apenas em termos numerais; em termos de gênero, os ensaios eram tão diferentes entre si que jamais poderiam ser publicados em um livro que não fosse justamente uma organização heterogênea de autores heterogêneos; em termos de grau, também eram demasiado desiguais. Como disse, os três contos não pareciam ter sido feitos pelo mesmo autor, embora os três autores parecessem influenciados por Noriega; mas ainda assim, o primeiro era muito melhor que os outros dois, não havia possibilidade de comparação direta. Entre os poemas também havia desigualdade: três eram ridículos, um poderia render algum prêmio meia-boca de poesia interiorana, mas o outro era uma obra-prima: não fosse o fato de eu já conhecer o conto de Noriega, provavelmente acharia o poema originalíssimo, peça de verdadeiro artista. Por infelicidade de Leonardo, era o poema que mais se assemelhava ao conto.
Gastei semanas lendo tudo, e durante este tempo não me comuniquei com Leonardo. Próximo de terminar o penúltimo ensaio (sobre a composição irônica e dialética do ethos lírico de um dos personagens do conto), soube que meu amigo havia sido internado em uma clínica especializada em transtornos de obsessão. Fui visitá-lo; parecia calmo, de um semblante que poucas vezes pude contemplar depois de sua primeira leitura de Desdicha.
- Sérgio, acho que estou doente. Não é só o conto que me aflige – não sei bem, parece que é só ele, mas o médico, e eu mesmo, achamos que é outra coisa. Eu não sei, se você souber da minha mulher, talvez seja ela, embora eu duvide, o médico pensa que talvez seja.
As frases dele parecem soltas, mas estou apenas sendo o mais fiel possível à memória; em outras partes arranjei melhor o texto por não me lembrar das palavras exatas. Neste caso, a última vez que conversei com Leonardo, lembro-me bem de cada frase, com cada uma das hesitações.
- Há mais textos em casa – disse-me ele, antes de adormecer. – Pegue-os, pedi para a enfermeira te dar a chave de casa quando saísse. Veja se algum deles vale a pena.
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(Quando chegou às minhas mãos o volume Obras completas del inédito contista americano Pedro Salinas Noriega – introducción y notas de Noel Salinas me surpreendi. Edição organizada pelo primo, também contista, com bom projeto gráfico e letras agradáveis de ler. Surpreendeu-me a quantidade de páginas: apenas 120, com notas e introdução e até alguns poemas esboçados. Ao todo eram onze contos, bastante curtos, concisos, bem escritos, talvez carentes de mais uma demão, mas ainda assim bem escritos. Recebi a edição em uma carta enviada por meu amigo Leonardo, como anexo de uma mensagem mais ou menos como essa:
Caro Sérgio, aqui estão os contos do pobre falecido Pedro Noriega. Um deles, em particular, me causou atenção, e gostaria de saber sua opinião a respeito. Trata-se do conto Desdicha: não entendi muita coisa do conto, e não acho que seja culpa do espanhol. Abraços.
Desconsiderei o laconismo da mensagem para refletir: depois de ler os onze contos, este Desdicha não se fixara bem na minha memória: notei que não havia entendido direito, ou talvez simplesmente eu não gostasse de sua inconstância, trabalhada em jogos de linguagem muito evasivos e, a meu ver, desprazerosos. Por sua vez, Leonardo fixou-se extremamente neste conto. Quando fui a seu casamento, quatro anos depois, conversamos a respeito. Dizia-me que estava preparando um ensaio sobre o conto, a despeito de não ser um especialista em literatura – pretendia ler e estudar o quanto fosse necessário para entendê-lo. Disse-lhe que não compensava o esforço, e provavelmente ele chegaria a uma conclusão desoladora, como por exemplo: o conto trata de uma desilusão amorosa do próprio Noriega. Ele disse que, se fosse algo assim, já teria descoberto: havia trabalhado já um bom tempo na exegese da narrativa. Notei que Leonardo tinha um grave defeito: não se apercebia dos movimentos à sua volta quando falava do conto: me sentia falando para as paredes quando lhe contava coisas importantes. Ele não conseguia pensar em outra coisa.)
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Mas havia muito mais coisas na casa do que eu jamais poderia prever. Fiquei com a impressão de que Leonardo havia me dado na primeira pasta somente textos que julgava terem alguma qualidade, pois a quantidade guardada em suas gavetas e armários era assustadora. Não descarto que, durante as várias semanas que se passaram desde a entrega da pasta com os ensaios, os contos, os poemas e o diário, Leonardo tivesse, num jorro de criatividade reprimida, escrito os cento e quarenta e oito textos que encontrei, de tamanhos variados e letra feia, apressada e descuidada. Tudo, absolutamente tudo que eu posso imaginar, estava descrito naquelas folhas: havia estudos sobre o uso peculiar dos ditongos não-etimológicos do espanhol; só sobre a configuração rítmica de uma das passagens do texto havia três interpretações, conflitantes entre si; além de um inesperado romance, inacabado, que contava uma história semelhante à de Leonardo, mas no ambiente musical: um homem que, ao ouvir uma melodia, tenta descobrir os motivos de sua qualidade tão estranha e inexprimível. Pelos fragmentos que pude reunir, o fim do romance seria feliz – como não foi o de Leonardo. Internado, passou boa parte do tempo que restou de sua vida sedado. Justificaram o procedimento com o argumento de que meu amigo sempre acordava alucinado, pedindo lápis e papel para escrever a última idéia que tivera sobre Desdicha. Inclusive, em seus momentos mais calmos, passava a limpo o texto do conto: o decorara, apesar de suas dez páginas intrincadas. A enfermeira comentou rapidamente comigo sobre estes momentos: Leonardo não se esquecia de assinalar as variantes de cada edição, repetindo os termos em litígio; inclusive, a mulher pouco pôde me dizer do conto em si. “Achei muito chato, e olha que eu ouvi ele repetir em voz alta já três vezes completas, e algumas partes soltas”. Não a culpo: o conto tem realmente uma natureza entediante, apesar do interesse que desperta sua leitura.
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Abro este parágrafo apenas para fazer um breve comentário à demanda de meu pobre amigo. Não pense o leitor que não o avisei, diversas vezes, sobre sua loucura. Dizia-lhe sempre: “estás agindo como um Quixote, perseguindo o conto como este perseguia aos gigantes”, mas ele sempre me respondeu com muxoxos e comentários maldosos à minha pessoa. Nesses dias eu alimentava raiva de sua pessoa; ele achava, sem dúvida, que eu queria tomar o lugar de sua esposa como conselheiro, e fazia piadas desagradáveis a respeito. Não minto que possuía real desejo de conservar minha amizade com o intuito de dissuadi-lo da doentia empreitada, mas acontecia sempre de eu me zangar com seus gracejos e mandá-lo ao diabo. Era um Quixote, sim, mas um Quixote maldoso, que se divertia em ser louco para me atormentar.
Quando relatei essa história a Noel Salinas, organizador da edição das Obras completas, este me disse com palavras bastante amáveis: “Seu amigo tinha uma semelhança com meu primo: eram tão perfeccionistas que morreram sem concluir as obras”. Não sei se tal juízo está correto. Bem ou mal, encontraram ambos neste perfeccionismo algo a dizer, e se Noriega conseguiu apenas morrer e entregar onze contos à posteridade, Leonardo deixou mais de mil páginas de produção sobre Desdicha, além de provocar, indiretamente, este meu relato.
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- Eu não me conformo. Esse conto é que nem mulher: muda de humor a cada leitura.
Espero que não tenha sido uma frase como esta a razão do divórcio entre Leonardo e sua mulher: teria sido realmente perturbador perder o casamento por comparar uma obra fictícia à própria esposa, em detrimento das duas. Verdade era que, em sua inconstância, o conto superava de longe qualquer uma das mulheres que conheci ou conhecerei; mesmo a dificuldade de estabelecer a data de sua redação era uma preocupação menor perto da impossibilidade tangível de compreender sequer uma linha do conto, mesmo percorrendo-o atentamente. O máximo que se podia fazer era admirá-lo e, por mais que o lesse, não acreditei que algum dia entenderia todos seus melindres. Não obstante, me bastava possuir um exemplar e lê-lo quando possível, quando desejável. Leonardo, por sua vez, esqueceu-se da mulher e dedicou-se exclusivamente ao conto. Conversava comigo pensando em falar com ela, algumas semanas depois, ou melhor, quando terminasse seu ensaio: como se compreender o conto fosse de alguma maneira absurda compreender também a mulher, e até quem sabe reconquistá-la.
Em todo caso, não teve sucesso em nenhuma das duas empreitadas. Mostrou-me alguns dias depois da postagem a carta que enviara à ex-esposa. Não a reproduzirei aqui, para preservar a privacidade do casal. Abrirei uma exceção somente para uma frase da resposta recebida um mês depois, de Buenos Aires; é vital para o entendimento do que se seguiu:
Para terminar, não quero saber dos seus projetos. Eu tenho os meus e você os seus, agora. Não faz qualquer sentido para mim esse tal contista, e você devia se separar dele também. Ouça seu amigo Sérgio.
Não ouviu. Resolveu empreender uma viagem para a Guatemala, para melhor conhecer o ambiente em que se deu a construção do conto. “Talvez, dizia, algo de importante tenha escapado à minha compreensão pelo fato de não ter vivido na cidade de origem do conto, alguma referência a hábitos ou situações climáticas”. Sem crítica alguma resolvi admoestá-lo de que, talvez, a viagem gerasse poucos dividendos diretos, e o gasto de dinheiro não se compensaria em uma publicação de artigo ou ensaio, fosse onde fosse. Respondeu-me com a lógica do apaixonado:
- Eu sei que não vai dar em nada. Na pior das hipóteses, treino meu espanhol.
Não treinou. Como ele próprio me contou, dois anos depois, passava os dias em uma pensão, onde havia alugado um quarto. A dona, uma senhora que não tinha por forte a dicção, tirava-lhe toda a vontade de se comunicar com qualquer ser vivo. Ainda assim, arranjou alguns amigos na biblioteca nacional, além de ter tido um ou dois encontros românticos, que me relatou com tal pudor, a ponto de eu não conseguir determinar o número de encontros, de parceiras ou mesmo de saber se ele não estaria falando de outra coisa e eu, desejoso de que meu amigo não perdesse completamente o juízo, estaria elocubrando em cima de conjeturas nascidas de minhas reflexões. Em todo caso Leonardo não obteve um espanhol mais fluente do que já tinha, e desconfio que, de tanto se aprofundar na Desdicha do malfadado Noriega, só dominava as palavras e locuções presentes nos contos. Meus conhecimentos de espanhol eram (e ainda são) parcos, mas sei que além de muito livre o espanhol de Noriega continha vários “defeitos”, ou seja, era experimental demais para ser considerado um padrão de fala.
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Pediram-me, há algum tempo, para fazer um pequeno comentário acerca deste muito meu amigo que, a 5 de novembro do ano passado, faleceu. Hoje resolvi dar início a esse início, e concluir meu relato. A ordem da escrita foi assim, desordenada, por ausência de modo próprio à narração: refleti muito antes de escrever as partes do meio que, inadvertidamente, tinha para mim como reais começos. Este sim, depois de tudo, é um real começo, embora escrito após o fim de tudo. Creio que não haveria problema, por exemplo, em incluir este parágrafo na metade do relato; os padrões de linearidade e cronologia há muito foram expulsos da lista de sensações humanas; vivemos a era da internet que, ao ligar tudo a todos e permitir o relacionamento infinito, faz tudo ser parte de uma mesma simultaneidade. Os antigos acreditavam que os mais antigos eram também seus contemporâneos, e algumas pessoas, de certo modo, ainda acreditam nisso.
No entanto, não posso simplesmente começar sem dizer exatamente qual é o problema. As coisas se precipitam, por vezes, e sinto agora vontade de pular para o meio da história, quando uma frase modificou tudo, e alterou todos meus sentimentos a respeito. Mas para entenderem tal mudança extrema precisariam estar na minha pele.
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