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Archive for the 'Naturalismos' Category

ainda sobre Dostoiévski

Falei de O Idiota aqui há um tempinho. No dia, citei um trecho que falava sobre o homem inteligente comum, que não é genial e é corroído pela dúvida - será que serei gênio algum dia? Quem me conhece sabe que vi refletido meu retrato, embora tenha superado parte da questão. Nos últimos dias, outra coisa referente a esse livro me inquieta. Trata-se do príncipe Míchkin. Sim, é o idiota do título: sofreu de uma grave doença mental, passou um tempo fora da Rússia para se tratar. Entretanto, o consideram idiota por outro motivo: sua bondade imensa, beirando os níveis mais terríveis da ingenuidade.

O personagem foi calcado em Jesus Cristo e Dom Quixote - é realmente um misto dos dois. Quem já leu romances russos sabe o quanto há discussões, brigas e desentendimentos. Os personagens passam da cordialidade seca para a raiva espumante em questão de poucas linhas. A exceção patética é o príncipe: praticamente incapaz de se zangar com quer que seja, tem seu momento máximo de exaltação ao defender a religião russa ortodoxa (contra o catolicismo, que identificava como corrupção moral). No resto do romance, faz tudo em prol da compreensão e da bondade, além de uma abnegação sem limites. É incapaz de pensar mal sobre qualquer um, acredita no que lhe é dito e trata a todos como criaturas sinceras. Tem um grande poder de observação, que lhe garante intimidade imediata com os dramas de seus conhecidos, mas esse poder se restringe às porções caridosas de observação. Para ele, onde há perfídia há também a possibilidade de salvação.

Lamento os que não leram, mas para entender minha proposição, preciso contar o fim do romance (que eu, inadvertidamente, já havia lido na orelha de minha edição: não prejudicou minha surpresa, como verão). O príncipe acaba sofrendo mais uma vez com o abandono de sua amada, pouco antes do casamento. Esta mulher já havia se desgraçado, praticamente por opção própria, e, apesar do amor que tinha pelo príncipe, julgava-se indigna de pessoa tão boa. Logo, fugir com um amante foi a alternativa. Míchkin, resignado, resolveu procurá-los (conhecia o amante e tinha-lhe certa afeição, muito embora quase tenha sido assassinado por ele). Quando encontra, a mulher está morta, assassinada pelo amante.

O príncipe fica abalado, mas consegue segurar-se. Resolve dormir junto com seu rival e assassino da amada, esperando pela chegada da polícia. Rogójin (o amante) consegue, depois de um tempo, adormecer praticamente nos braços de Míchkin, que afaga carinhosamente seus cabelos. Nada mais ocorre no romance: Míchkin, em estado catatônico, volta ao tratamento pior do que da primeira vez. Rogójin é preso e condenado a trabalhos forçados.

Muitas pessoas não aceitaram este final, julgando-o inverossímil ao extremo. Tenho para mim que sou como Míchkin, sem suas grandes qualidades. Esta última demonstração de carinho antes do desligamento completo do mundo, antes do enlouquecimento, é o tipo de ação que consigo visualizar para minha pessoa. Não me sinto, entretanto, tão bom quanto Míchkin; invadido pela maldade inerente a todo ser humano, só conseguiria perdoar uma pessoa tão vil se fosse meu último ato, e mesmo assim não seria um perdão completo, incondicional: nasceria do desejo de ser bom. Todo ser humano tem esse desejo, e talvez fosse a vontade de Míchkin. Entretanto, ao atingir o nível mais profundo de sinceridade desprendida e bondosa, não pode mais fazer parte de nosso mundo. O sanatório é seu lugar. O meu ainda é o mundo, e sou alheio ao próprio bem que porventura faço - não redime, embora console.

nós, os (pretensos) críticos

Nós, os críticos de arte. Sim, me incluo nessa categoria, e coloco entre parênteses o “pretenso” única e exclusivamente para mim, não quero questionar ninguém. Se me incluo é porque, de certa forma, é o fim para que faço faculdade - espero que ninguém faça Letras para ser contista, romancista, poeta, é mais provável que fracasse. Quero ser crítico literário, mas algumas dúvidas persistem.

Li recentemente Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister; recomendo. Goethe nos apresenta Wilhelm, um jovem que acredita possuir vocação para o teatro. Passa mais da metade do livro aperfeiçoando-se na dramaturgia, mas quando finalmente consegue uma atuação magistral (no papel de Hamlet), descobre que sua vocação é um “erro” incentivado por terceiros (a Sociedade da Torre) para que, depois de atingir o topo como ator, Wilhelm se convencesse de que não possuía talento.

Nós não temos uma Sociedade da Torre para mostrar o caminho. Não temos ninguém que diga: “você está errado, mude de sonho”. Ou melhor, até temos, mas não podemos confiar em ninguém tão facilmente. Ninguém nos observou toda nossa vida (como fez a Sociedade com Wilhelm) para saber se tínhamos ou não a chance de ser o que queremos. Ouvimos aos outros com dedicação, mas é impossível garantir que estão certos. Freqüentemente nos enganamos.

Voltando a nós, os críticos. Buscar motivações para nossa atividade literária, de certa forma literatura de segunda mão, é, na minha opinião, desnecessário e até desonesto. Qual a motivação para alguém escrever um romance, um poema? Oras, podemos repetir cada argumento, cada um deles, como se fosse a verdade absoluta. Não responde a principal pergunta: por que escrever sobre um poema, e não um poema? Seria a frustração a maior motivação para um crítico literário?

Sabe, já falei aqui que não tinha mais pretensão como literato. Não mesmo: minha pessoa, Vinícius de Melo Justo, não precisa nem pode precisar fazer literatura para viver tranqüilo. Já acreditei ser necessário; eram apenas vontadezinhas auto-infligidas. Desejo de repetir o sucesso estético de outros, ou melhor, fazer o meu próprio sucesso. Para onde isso me leva? Lugar nenhum.

Mas e a crítica? Aí entramos em outro terreno. Muito curioso, por sinal. E remonto a outra leitura: O Ano da Morte de Ricardo Reis. Gosto muito de Saramago, não sei porquê. Ele é bom, mas tinha tudo para me desagradar de algum jeito. Um dia eu explico isso melhor. Voltando.

Durante a leitura do livro, senti várias coisas estranhas. A primeira foi uma necessidade de parar de ler o livro no meio de uma frase e imaginar. Imaginei Saramago, sentado em uma cadeira, apoiando o corpo sobre uma escrivaninha onde rabiscava um trecho do livro. Ele não incluiu o trecho no livro. Retirou. Eu soube o que ele escreveu na hora, mas quando fui ler de novo, vi que não estava no lugar exato onde deveria estar, no meio daquela frase. Aos poucos a frase rabiscada se apagou na memória.
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Eu devia falar assim sobre um livro? Não, eu deveria sobriamente analisar a composição do livro e dizer se ele é ou não bom. Mas só senti necessidade de falar sobre o livro depois de imaginar Saramago riscando um trecho que só eu e ele lemos do livro, um trecho óbvio, mal escrito, justamente retirado. Minha obrigação é escrever esse trecho de novo. Tentar me lembrar. Esse trecho vai ser a primeira frase de um texto sobre o livro.

***

Tem gente que vai rir lendo este texto, pelas mais diversas razões. Ficarei feliz com cada uma das risadas, mesmo que dirigidas à minha pessoa. Para concluir: penso que eu, tendo escolhido falar sobre obras de arte, escolhi também ser pego por elas. Eu só sirvo para fazer bem aos bons autores. Se houver algum grande poeta, eu devo divulgá-lo. Se houver um grande romancista, devo incensá-lo. Minha obrigação é para com eles. Devo escolher os livros certos e sumir, para que outros melhores que eu brilhem.

Отец Сергий

No dia de meu retorno a Sorocaba, 21 de dezembro, acabei por ler uma novela de Tolstói, durante a viagem, chamada Padre Sérgio. Impressionou-me a capacidade do autor de mostrar que, por mais que tentasse, o referido Padre Sérgio jamais conseguiria, por melhor que fosse seu ímpeto, impedir que sentimentos mundanos se sobrepuzessem às suas aspirações de viver dedicando-se a Deus. O herói, desde o início da novela, caracteriza-se por ser orgulhoso e de ambição perfeccionista. Entretanto, jamais se realiza em alguma atividade, rejeitando a alta sociedade, o monastério, a vida como eremita, apesar de tudo que faz para tentar chegar até cada um destes patamares. No fim, acaba por se redimir ao notar que não vivia para Deus, e sim para os outros, o que o tornava falho e inconcluso. Parou de considerar as opiniões dos outros e passou a viver peregrino, conformando-se com as chacotas e bravatas dirigidas à sua pessoa. Tornou-se, enfim, na hagiografia proposta por Liev Tolstói, um quase santo.

Segundo muitos comentadores, o fim não convence: Tolstói estaria tentando fazer da novela um panfleto para divulgar suas idéias sobre abnegação, humildade e devoção - que no geral se resumiam, em sua conduta particular, a ser um baita egocêntrico, arrogante, de vista obnubilada pela “vã glória de mandar”. Tolstói, em seus escritos religiosos, até transmite alguma esperança de dias melhores, para aqueles que querem se ver no caminho de Deus. Mas não consegue em Padre Sérgio. Quem lê se sente incomodado com o final redentor porque sabe que, depois do final, Sérgio provavelmente se daria conta de que Deus é, para ele, uma pessoa - magnífica, mas ainda pessoa -, uma pessoa que ele estava tentando em vão impressionar. O círculo vicioso não tem fim. Quando passasse a acreditar nisso com todas as forças, veria o motivo de todas as suas ações serem sempre facas-de-dois-gumes, e a vida humana um processo constante do que chamam de razor’s edge, fio da navalha: não há bem, não há mal, há apenas culpa, ou regozijo, do qual o ser se sentirá culpado posteriormente.

Não preciso dizer que saí da leitura um tanto perturbado.

Portugal, 11 de junho de 1915

Por esses dias me lembrei disto:

De aqui de Portugal, todas as épocas no meu cérebro,
Saúdo-te, Walt, saúdo-te, meu irmão em Universo,
Eu, de monóculo e casaco exageradamente cintado,
Não sou indigno de ti, bem o sabes, Walt,
Não sou indigno de ti, basta saudar-te para o não ser…
Eu tão contíguo à inércia, tão facilmente cheio de tédio,
Sou dos teus, tu bem sabes, e compreendo-te e amo-te,
E embora te não conhecesse, nascido pelo ano em que morrias,
Sei que me amaste também, que me conheceste, e estou contente.
Sei que me conheceste, que me contemplaste e me explicaste,
Sei que é isso que eu sou, quer em Brooklyn Ferry dez anos antes de eu nascer,
Quer pela Rua do Ouro acima pensando em tudo que não é a Rua do Ouro,
E conforme tu sentiste tudo, sinto tudo, e cá estamos de mãos dadas,
De mãos dadas, Walt, de mãos dadas, dançando o universo na alma.

Não sei porquê, mas me lembrei.

aporia

Na esteira do comentário no post anterior, sugeri uma reflexão para mim mesmo: há problema na confessionalidade? Claro que há, me respondi, como há problema em tudo. Então, pensei, isso não é nada desejável. Claro que não, respondi novamente. Nada desejável.

—–


Depois, Ed. Depois.
Amanhã, eu prometo.

Prometo também um pequeno compendium, à parte desta corrente infalível da página 161. Serão uns trechinhos de Ralph Waldo Emerson.

Pegarei a página 161 assim que me lembrar disso em casa. Ou seja, será um livro caseiro. O mais próximo de mim quando me lembrar. Tenho certeza que será conveniente.

Minha primeira leitura de Chesterton, hoje à tarde:

There has appeared in our time a particular class of books and articles which I sincerely and solemnly think may be called the silliest ever known among men. They are much more wild than the wildest romances of chivalry and much more dull than the dullest religious tract. Moreover, the romances of chivalry were at least about chivalry; the religious tracts are about religion. But these things are about nothing; they are about what is called Success. On every bookstall, in every magazine, you may find works telling people how to succeed. They are books showing men how to succeed in everything; they are written by men who cannot even succeed in writing books. To begin with, of course, there is no such thing as Success. Or, if you like to put it so, there is nothing that is not successful. That a thing is successful merely means that it is; a millionaire is successful in being a millionaire and a donkey in being a donkey.

Tendo a frase final em mente, eu diria que este blog é um sucesso.

E pensar que o tal de Chesterton publicou isso em 1909.

Só para comentar,

os jogos de futebol de hoje em dia são meio sem graça. Mas ontem assisti Barcelona e Lyon e me surpreendi lamentando um gol não feito. Não torço para o Barcelona, mas achei maldade que a bola não tivesse entrado. Soltei um palavrão. Notei que não estava torcendo por um time - estava torcendo para mim mesmo. Para que eu tivesse a oportunidade de ver um lance bonito. Depois o jogo ficou mais sem graça e li alguns poemas de Wallace Stevens com a TV ligada. Segue a vida.

Inadequação

Quem olhasse para minha biblioteca particular – pequena, enxuta, mas lida e relida em boa parte – enganaria-se sobremaneira quanto ao meu thinkabout criticism. Olho para o lado: vejo sete livros de Antonio Candido, um de Alfredo Bosi, outro de Lafetá. Junto a eles, Adorno, Benjamin e, meio escondido, Lukács. Um Auerbach meio perdido termina de compor os casos mais imediatos; poderia acrescentar Wellek e outros, mas não faz muito sentido; como viram, a predominância da Escola de Frankfurt hegeliana e seus derivados hegelianos no Brasil é meio sintomática – evidencia onde estudo, qual a orientação de meus professores, mas não diz nada sobre a minha orientação. Não que eu tenha alguma formação sólida, mas Mikhail Bakhtin, Harold Bloom, Samuel Johnson, fariam bem mais sentido em minhas prateleiras – não tenho nenhum livro deles. Pelo menos tenho Alcides Villaça (já falei sobre ele aqui); meu modelo de leitura de poesia.

utilidade temporária

“Será que alguém realmente acredita que um blog presta para alguma coisa? Eu não acredito. Se escrevo, é mais por esporte.” Tá até aí, nada de incomum. Muitas pessoas assinariam embaixo desta frase, mesmo não acreditando. É chique achar-se inútil. Eu não quero ser chique. Se alguém lê o blog, e acha que valeu a pena, provavelmente está enganado: mas não sou eu quem vai provar. A pessoa que leia quantas vezes quiser; em alguma das vezes vai parar de ler isso aqui e correr para os braços de Pablo Neruda ou algo que o valha. E eu, quando for algo que o valha, estarei em livro.

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