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Archive for the 'Ludicidades' Category

Natal

Passei o Natal em casa de minha tia. Meu primo acaba de ser pai - um belo menino, de seus quase três meses. E todos, todos que o vêem, ficam paparicando a criança. Num momento notei que, se eu fosse o pai, não ia gostar nada de tanta gente em cima de meu filho, principalmente fazendo caretas e falando num miguxês apequenado. Acho que se tiver um filho vou me esconder dos parentes por uns cinco anos com ele. Ou no máximo visitas breves, sei lá. Comentei com minha mãe e tive aprovação. O único risco é se depois o pirralho não gostar tanto dos parentes quanto gostaria se tivesse contato desde o berço. Mas é um risco pequeno - criança, quando quer, gosta.

explicação

Não pretendia, ao fazer este blog, postar poemas meus. Mas duas reflexões me fizeram alterar esta premissa.

A primeira foi que me conscientizei de que eu morria de vontade de postá-los, e só não o fazia por medo, por vergonha. Medo de ver críticas, vergonha de parecer (ser/estar) um idiota tentando ser poeta. E daí vem a segunda.

Esta, mais serena que a primeira, é simples: não tenho mais pretensão de, um dia, publicar poesia. Nem nada na ordem de literatura propriamente dita. Se eu escrever alguma coisa, será mais para mim do que para os outros (literatura é também para os outros; ficar escrevendo é como jogar videogame). A terra me será leve, e vou à crítica da literatura.

Logo, não deveria haver problemas em postar poemas. É até melhor: se eu não tiver um post pronto, ou idéia, e quiser escrever, pego um poema, dou-lhe um “trato” e jogo aqui. Cão mijando no escuro.

Lembro-me

Fazia tempo que eu não escrevia nada aqui, nem em algum outro lugar. Fez pouca diferença. Não padeço da necessidade vital de que falava Rilke de escrever a todo custo - só escrevo quando me é conveniente. Está sendo agora. Falo de mim mesmo em cada linha, não há porque ficar escrevendo todo dia. Pensar é mais gostoso. Dá até para imaginar alguns pensamentos seus escritos; você até tenta escrever poemas, às vezes, com o que você pensa. Balela. Deve haver um daemon que se encarrega somente da escrita dos poemas de todo o universo. O que Rilke achava que era liberdade era escravidão - vice-versa.

Jogo dos Contrastes

Ontem não vi dois jogos que queria ter visto: Brasil versus EUA no mundial de futebol feminino e River Plate versus Botafogo.

No primeiro, os melhores momentos mostram a magia do futebol. Não preciso falar de como joga a maior craque do mundo, Marta. É simplesmente a prova de que ainda há gênios no futebol.

No segundo, o resultado foi o maior vexame do ano. Depois de estar à frente no placar por duas vezes com um jogador a mais, o time brasileiro conseguiu perder o jogo por 4 a 2 e ainda por cima a vaga na próxima fase. E pensar que acreditei no Botafogo para esse ano.

Notícias Desportivas

Duas coisas curiosas:

A primeira - um goleiro fazendo gol aos 23 segundos de jogo.

A segunda - um anão desmontando o beisebol.

A primeira é gentileza. A segunda é sacanagem.

crime e castigo

A McLaren foi punida com a exclusão do campeonato de construtores, mas não do campeonato de pilotos. A lógica, como disse meu pai, deveria determinar que os pilotos não deveriam correr, já que a equipe foi excluída. Mas a lógica só funciona quando se conhece a política das situações, e também quando se sabe comer pizza. Os italianos da Ferrari devem estar com vontade de perguntar o sabor, mas quem tem telhado de vidro aceita a lógica da mussarela (pior que a reforma ortográfica é o atentado contra a adaptação vocabular que perpetram os dicionaristas dizendo que a palavra italiana deve ser vertida para “moçarela”. Terrível. Prefiro a injustiça social a utilizar tal vocábulo).

Brecht conta:

“Gorelik esteve aqui ontem, com um producer-writer de nome Auerbach, um americano que ele tem em razoável conta. Winge narra a trama do KK [Der kaukasiche Kreidekreis, peça de Brecht]. Gorelik faz perguntas sobre o sentido, depois tentam criticar a construção. Onde está o conflito, a tensão, carne e sangue etc. etc.? Tento falar da construção complicada e engenhosa de Hamlet, so what, “e daí que Hamlet não tem construção?” (o que será que Moss Hart entende por construção?). Ao entrarem no carro com Winge, dizem: “ele nunca vai fazer sucesso. Não sabe suscitar emoções, não há nenhuma identificação, e aí ele faz uma teoria sobre isso, he is crazy and gets worse”. A prostituição desses “artists” é completa. A puta vende o “efeito” nu e cru, é bem paga para isso, uma vez que o cliente é impotente. O interesse que o público parece dedicar à vida é idêntico ao do usurário, devia chamar-se “juros”.”

Texto de Bertolt Brecht em seu diário, quando houve dificuldades para fazer os produtores do teatro americano aceitarem sua peça (O círculo de giz caucasiano) “sem emoções”. Mudei algumas coisinhas no texto, como acentuação. Grifos meus.

Volteios

Existem alguns livros que só servem para tomarmos consciência do valor dos bons livros. E há bons livros que só existem para tomarmos consciência dos excelentes. Mas depois dos excelentes, ainda sobram aqueles livros que são mais do que excelentes, são mais do que alguma categoria crítica pode mensurar: e nestes repousa nossa eterna gratidão, que para nós vale mais do que todos os méritos que a obra possa ter.

Três notinhas

Apesar deste tempo de Pan, onde brasileiros acreditam que sua pátria evoluiu nos esportes, embora evolua apenas na corrupção dos dirigentes da maior parte das confederações, de futebol e basquete (meus preferidos) incluídas; e acreditam na ilusão de que estamos sediando um evento importante, quando na verdade é apenas um treininho que alguns estadunidenses de segunda grandeza fazem antes das Olimpíadas, deixando boa parte das medalhas com brasileiros; há ainda algo a destacar: na minha opinião, o principal: o tempo fantástico de César Cielo nos 50 metros livres, apenas dois décimos (um piscar de olhos) acima do recorde mundial de Popov; a briga entre Bernardinho e Ricardinho, gerando incerteza na maior máquina de jogar vôlei construída neste século; a genialidade de Marta, craque quase tão formidável quanto os de outrora, quando Pelé, Zico, Didi, Sócrates, Falcão, Gérson, Ademir da Guia e tantos outros jogavam, fazendo do esporte mais popular do planeta também o mais belo.

Aprovados FUVEST 2008