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Archive for the 'Ensaios' Category

outra tradução

Walt Whitman é bastante conhecido por seus longos poemas, como Song of Myself, ou When Lilacs Last in the Dooryard Bloom’d. Menos pessoas chegaram a apreciar sua prosa, que não é feita de contos, nem de poemas em prosa: são textos de outro gênero. Walt batizou-os de Specimen Days, um nome apropriado e curioso: traduzível, com alguma perda, por Dias Exemplares. Apresento um dos textos mais curtos dos Specimen Days:

Meeting a Hermit

I found in one of my rambles up the hills a real hermit, living in a lonesome spot, hard to get at, rocky, the view fine, with a little patch of land two rods square. A man of youngish middle age, city born and raised, had been to school, had travel’d in Europe and California. I first met him once or twice on the road, and pass’d the time of day, with some small talk; then, the third time, he ask’d me to go along a bit and rest in his hut (an almost unprecedented compliment, as I heard from others afterwards.) He was of Quaker stock, I think; talk’d with ease and moderate freedom, but did not unbosom his life, or story, or tragedy, or whatever it was.

Segue uma tradução minha:

Encontrando um Ermitão

Achei, em uma de minhas andanças pelas montanhas, um verdadeiro ermitão, vivendo em um ponto solitário, difícil de alcançar, rochoso, de bela vista, em um pedaço de terra de dez metros quadrados. Um homem de jovem meia-idade, nascido e crescido em cidade, fora à escola, viajara por Europa e Califórnia. Encontrei-o uma ou duas vezes na estrada, e passei o tempo do dia tagarelando com ele um tanto; então, na terceira vez, ele me pediu para acompanhá-lo um pouco e descansar em sua barraca (uma honraria quase sem precendentes, como ouvi de outros depois). Era da estirpe Quaker, creio; falou com leve e moderada liberdade, mas não abriu sua vida, ou história, ou tragédia, ou seja lá o que for.

É uma fração, um momento de revelação, que Whitman apresenta o mais serenamente possível. O ermitão é uma figura enigmática que se fixa na mente do leitor apenas por suas características, e não por algo que tenha dito. É Whitman quem acha que havia algo para “abrir”, como a vida, a história, a tragédia. Tal desconfiança reflete-se em sua suposição sobre o ermitão ser um Quaker: talvez Whitman sugira que, nessa situação de isolamento, o ermitão busca esquecer-se dos tristes fatos da vida por meio de uma doutrina de paz e simplicidade, e conseqüentemente não fale sobre certos assuntos pessoais.

Arquivos

A ausência deste blog por um tempo foi justificada por uma passagem de uma semana em São Paulo que realizei de terça-feira a terça-feira passadas. Inclusive, nesta última terça, precisei levar meu computador de São Paulo para Sorocaba, devido a problemas técnicos. Curiosamente, este computador esteve por um ano - ou mais - desconectado da Internet, sendo utilizado apenas para o digitar de alguns trabalhos de faculdade. Toda esta introdução se faz necessária para explicar o tamanho de minha surpresa ao, remexendo nos arquivos deste computador, encontrar projetos bastante antigos de blogs e literaturas, coisas que ficaram apagadas e das quais talvez eu jamais me lembrasse não fosse a curiosidade hostil que exerci sobre algumas pastas misteriosas do disco rígido. Entretanto, poucos arquivos continham efetivamente alguma coisa, pois estavam muito mais repletos de sonhos e esquemas do que qualquer obra fechada. Todos os defeitos de meus planejamentos se verificavam ali: o primeiro, e mais grave: sempre acredito que irei me lembrar de tudo que imagino e por isso reduzo minhas idéias às frases mais sintéticas e essenciais, sem expor a mim mesmo os caminhos do raciocínio. O leitor pode considerar isso de certa forma algo benéfico, pois seria uma limpeza de pensamento a que poucos aspiram e menos pessoas ainda atingem. Entretanto, só posso me lamentar; encontrando apenas a síntese meio rarefeita, não posso fazer nada mais com aquele fragmento além de repisar-lhe a verdade e incorrer nas mais cruéis tautologias.

O segundo e o terceiro defeitos de meu planejamento podem ser vistos a partir da análise de um desses fragmentos sintéticos:

Talvez fosse este o motivo que dava tal semblante ao homem: era um ritualista, sabia o que ocorreria. Já fizera aquele ritual do lado oposto; recordava-se: era mais fácil. Se a salvação da tribo passa por um sacrifício, ele o aceita de bom grado. Não há dúvida para quem retorna.

Nota-se claramente a inocência de uma criança nestes escritos que consideram ser preferível o “terror conhecido” ao “terror desconhecido”, como se o choque que se sente da primeira vez com algo sempre fosse decrescente, tornando-se em algum momento quase inócuo. Ou melhor, não exatamente “quase”: “não há dúvida para quem retorna”. Voltando a este texto, tenho muitas dúvidas e, devo dizer, sinto um choque cada vez maior do que sentiria da vez anterior. Por fim, nada de muito belo vem deste trecho. Notem a deselegância da passagem; parece ter sido escrita às pressas, embora eu tenha quase certeza de que meditei um bocado para escrevê-la; servem de provas para tal hipótese a presença de uma pontuação significativa, algo que não consegui tão facilmente em nenhum de meus textos, mesmo os de três anos atrás.

Ainda tento retirar algum significado de cada uma das palavras que escrevi, mesmo as mais simplórias, mas acredito ter chegado a uma conclusão nada animadora: é possível encontrar quaisquer conjeturas nestes pequenos trechos, por mais fracos que sejam, e relacioná-las infinitamente com todas as outras frações que reconhecermos como existentes e possíveis. Caso um tal trecho não seja reconhecido como existente e possível, torna-se algo de tão original que se funde ao autor de maneira inextricável, e o autor torna-se a mediação para as coisas existentes e possíveis; caso não exista autor, o texto pode fundir-se a um Zeitgeist específico e, enfim, integrar-se: as coisas do universo aspiram à esta integração que nem sempre é desejável: eu, por exemplo, não desejo tais fragmentos e por isso não lhes reconheço existência própria: serão para sempre somente meus erros.

Emerson #1

There is one mind common to all individual men. Every man is an inlet to the same and to all of the same. He that is once admitted to the right of reason is made a freeman of the whole estate. What Plato has thought, he may think; what a saint has felt, he may feel; what at any time has be-fallen any man, he can understand. Who hath access to this universal mind is a party to all that is or can be done, for this is the only and sovereign agent.

Começa assim o primeiro ensaio do segundo livro de Ralph Waldo Emerson. Nascido em Boston no ano de 1803, Emerson é um humanista no sentido apaixonado da palavra: acredita na plena possibilidade do ser humano alcançar níveis bastante altos de compreensão do universo.

No trecho acima, Emerson propõe a existência de um padrão para a consciência de cada ser humano. Reflexo das idéias libertárias da Revolução Americana, que construiu o primeiro país democrata (no sentido que hoje damos à palavra). A democracia é uma das maiores auto-referências, até hoje, dos Estados Unidos. É possível dizer que isso só foi possível com o poder reflexivo não só dos ensaios emersonianos, como também da poesia de Walt Whitman e do posicionamento político de Abraham Lincoln, entre muitos outros.

O conceito de “História” de Emerson é constituído desta noção democrática, de que todo homem pode conseguir pensar o que Platão pensara. Mais do que isso: o homem, enquanto ser definido no espaço e no tempo é, não obstante esta limitação, uma “enciclopédia inteira de fatos”. A História nada mais é do que o registro inevitável, feito era após era, da mente individual que é parte constituinte de cada homem. Ou seja: os fatos históricos já estão todos representados no próprio ser humano, cuja vida os ilustra:

I believe in Eternity. I can find Greece, Asia, Italy, Spain and the Islands – the genius and creative principle of each and of all eras, in my own mind. (…) All history becomes subjective; in other words there is properly no history, only biography.

Dando tal valor ao que reside na mente do homem, Emerson está sugerindo que a consciência é, por si só, um valor universal, medida de toda e qualquer ação humana. Este pensamento apresenta uma composição metonímica, da qual o indivíduo é parte e a “mente comum” é todo. Assim que esteja presente a razão na mente humana, esta será parte de tudo que a humanidade já conquistou, sentiu e realizou. É claro que o ser conservará sua individualidade por meio, evidentemente, de suas diferenças em relação às outras partes.

The difference between men is in their principle of association. Some men classify objects by color and size and other accidents of appearance; others by intrinsic likeness, or by the relation of cause and effect. The progress of the intellect is to the clearer vision of causes, which neglects surface differences. To the poet, to the philosopher, to the saint, all things are friendly and sacred, all events profitable, all days holy, all men divine. For the eye is fastened on the life, and slights the circumstance. Every chemical substance, every plant, every animal in its growth, teaches the unity of cause, the variety of appearance. (grifo meu)

A unidade de causa sugere um valor absoluto, uma enteléquia da consciência humana - que proporciona a todo ser múltiplas possibilidades -, mas sem esquecer que a variedade de aparências é, em si, uma definição de pureza. Quanto mais variedade incorporada, mais próxima da unidade de causa - e do valor absoluto - estará o ser humano. Por isso a valorização de poetas, filósofos e santos no trecho acima.

É impossível não deixar de se lembrar, quando se lê a frase sobre o poeta (To the poet (…) all things are friendly and sacred, all events profitable, all days holy, all men divine.), da poesia de Walt Whitman. Só para breve recordação, alguns versos esparsos de Song of myself:

I am the poet of the Body and I am the poet of the Soul,
The pleasures of heaven are with me and the pains of hell are with me,

(…)
I am not the poet of goodness only, I do not decline to be the poet of wickedness also.

I know I have the best of time and space, and was never measured and never will be measured.

Tudo isso, no entanto, não é garantia de nada. Afinal, o poeta, o filosófo, o santo, são criaturas que têm outra relação com as coisas, muito diferente (e mais rica e ampla) do que a maior parte das pessoas. O caminho para atingir a tal “mente comum” não passa necessariamente pelos livros, ou pela compreensão científica, como Emerson assinala no final do ensaio:

…but the path of science and of letters is not the way into nature. The idiot, the Indian, the child and unschooled farmer’s boy stand nearer to the light by which nature is to be read, than the dissector and the antiquary.

Uma posição romântica, sem dúvida; muito distante do atual cientificismo pseudo-evolucional. Talvez por isso seja tão boa aos meus olhos.

Link para o ensaio completo (em inglês) aqui.

another reflection

A obra de arte tornou-se ao mesmo tempo objeto de consumo e de reflexão. Para satisfazer a dupla demanda, forjou-se um Frankestein enorme, composto de diversos ideais aparentemente inofensivos: abertura da obra a sentidos e interpretações os mais diversos e contraditórios possíveis; quebra estilística, que faz com que não existam formas certas ou erradas; atenção ao admirador da arte, ou seja, compromisso comunicativo; incorporação do imaginário pop à lista de possibilidades da arte. Oras, cada idéia possui em si problemas graves. Vejamos quantos:

- a abertura da obra se dá, hoje em dia, basicamente por uma ausência, a priori, de significado. Esta ausência ocorre principalmente porque o artista não tem capacidade nem mesmo para se iludir de um significado em particular; acredita piamente que a arte não precisa de significado intencional, e por isso nem mesmo pensa enquanto faz a obra (ou, se pensa, o faz muito mal).

- a quebra estilística é o único meio de evitar o esgotamento de uma forma em específico, mas apenas da forma enquanto forma. Se eu traduzir Machado de Assis para o miguxês não haverá uma revolução do romance; na verdade, haverá somente uma hermetização inicial da linguagem que não altera o sentido. Vender deste modo uma obra como revolucionária, sendo que esta só transporta os clichês para uma nova linguagem, é algo de tão desonesto quanto vender cerveja em lata de refrigerante.

- toda obra de arte tem uma função comunicativa (principalmente quando publicada), mas só os medíocres se preocupam no tamanho do alcance logístico. As simplificações que decorrem da tentativa de dizer algo a todos acabam por limitar a arte de modo tão sufocante que ela já surge natimorta.

- por fim, o pior de todos os procedimentos: incorporar a cultura pop à obra. Naturalmente é a desculpa perfeita para erros de linguagem, opções absurdas e formulações abaixo da crítica. O artista diz que a obra possui elementos da cultura pop quando não passa de mais um produto (e de qualidade reduzida) desta cultura – é quando a metonímia faz o caminho inverso, e ao invés da obra conter o pop, na verdade o pop é que a contém.

Eu nem fui longe o suficiente, em parte por não ter preparo para tal. Mas só o que escrevi já deveria ser o bastante para quem ainda engana aos outros (e a si mesmo) a respeito de ser um artista. É louvável que se tente algo de tão nobre, mas para uma postura nobre é necessário pensar um pouco aristocraticamente. E isso significa: refletir sobre o que se está dizendo na obra, garantir que o estilo adotado não seja apenas um maneirismo decadente, impedir que a busca pelo sucesso se torne limitação e, principalmente, assumir os pecados cometidos e não jogar a responsabilidade para a incapacidade dos críticos de compreenderem a beleza de um sistema que é tudo, menos belo. Em suma: saber que existem valores estéticos. É a única profissão de fé a que o artista nunca escapa.

Isso tudo é o básico para alguém que queira fazer arte – inclusive para mim. Eu mesmo não respeitei, e não respeito, muitos pontos destes princípios; inclusive, este desrespeito (por vezes inconsciente) é um grande motivo da falta de qualidade da maioria esmagadora de minhas obras. Pelo menos ainda não tentei vender nenhuma delas, e duvido que faça isso tão cedo.

odd reflections about sportsmanship

Como pretenso crítico literário e pretenso literato, não tenho porque não acompanhar a tal da Copa de Literatura Brasileira. Sou muito interessado em esportes, quem me conhece sabe. O termo “copa” vem do latim, como disse o Ed, mas relembro que a grande conotação é a idéia de um torneio “mata-mata”, ou seja, jogos eliminatórios até a grande final - mesma estrutura dos play-offs da NBA e da NFL, da segunda fase da Libertadores da América, da Champions League e de toda a Copa do Brasil. Como vêem, meu interesse em esportes é alto. Em literatura também, mas como é uma “Copa”, vou prestar mais atenção na questão do esporte.

Façamos uma análise estrutural, sem quaisquer conotações estéticas. A CLB (chamarei por uma sigla, ok?) apresenta uma estrutura com 16 participantes, os quais se enfrentam em eliminatórias simples, sem direito à repescagem. Um jurado por vez decide o resultado, exceto na final, onde todos irão dar seu voto. Portanto, trata-se da disputa entre dois romances (lançados obrigatoriamente no ano passado) que terão o voto de um jurado para passar adiante.

O processo guarda semelhanças com o boxe olímpico, onde não há nocaute (salvo casos cruéis, qualquer dia ponho um vídeo aqui). Há apenas soma de pontos, dados por juízes. Quando há um golpe, os juízes devem decidir se foi válido. Caso três, ao mesmo tempo, achem válido, o ponto é validado. Caso contrário, necas. No caso da CLB, só há um juiz, tornando as decisões mais identificáveis.

Fiquemos com as regras. Mas é aí que embanana: não há regras. Cada jurado faz as suas. Hum. Imagino que os encontros foram decididos por sorteio (mesmo que não fossem, como não há prêmio, não há risco de manipulação). Ok. Aí encasqueta: que raio de Copa é essa que possui diferentes critérios de julgamento de cá para lá? No boxe, no basquete e no futebol, as regras são as mesmas no mundo todo, com variações raríssimas; aqui as regras mudam a cada jogo.

A própria organização coloca um dos objetivos como “mostrar o processo por inteiro”, ou seja, privilegia a exposição do julgamento de valor feito em cada “disputa”. Além disso, outro objetivo é “dar voz e espaço a cada jurado para explicar sua escolha”. Mais do que isso, eu diria. É dar somente a posição pessoal de cada jurado em cada partida - aqui, a máxima futebolística do “cada jogo é um jogo” faz total sentido.

A Copa não perde interesse por isso; o interessante, a meu ver, não será discutir os vencedores, e sim discutir os critérios específicos de cada um dos jurados. A exposição é um risco duplo: pode-se expor um ser feio, pode-se expor mais do que o desejável.

O primeiro jogo já ocorreu, e Renata Miloni foi a jurada, na disputa entre Mãos de cavalos e Por que sou gorda, mamãe?. O segundo, com jurisdição de Jefferson Maleski, entre Memorial de Buenos Aires e O adiantado da hora, foi hoje. Exercitarei minha boa vontade e tentarei ler os livros que estão no caminho da taça, para depois ler as opiniões de cada jurado. Será difícil: para minha surpresa, nenhum dos livros concorrentes está no acervo da biblioteca da USP, a única à qual tenho acesso; mas como sou um leitor incorrigível, talvez até leia um ou dois.

No entanto, não acho nada simpática a tal idéia da Copa: todo esporte tem regras bem claras e objetivos bem definidos para obter sucesso. Por que associar a literatura, que não possui nenhuma das duas coisas, a algo tão antitético? Fins de marketing? Bom, se fossem, a sobriedade de um concurso com as mesmas características, mas sem o nome “Copa” e o ranço de competição sem regras, talvez fosse mais eficiente mercadologicamente. Fins de diversão? Se sim, ok, mas eu já me diverti demais jogando Winning Eleven, Knockout Kings e coisa e tal. Se precisar de mais uma dose, meu Playstation está logo ali. Fins de sei-lá-o-quê? É, parece que sim.

A idéia foi tirada dos americanos. Estes sim, vêem competitividade em tudo. Mas nem é esse o problema; a meu ver, está mais embaixo. É achar que, por sua diversidade e riqueza, a literatura comporta tudo; talvez comporte muita coisa, mas jamais tudo. Pois “tudo” significa “muita coisa vulgar no meio”: e a literatura sobrevive, basicamente, do que é muito bom. O “quase bom” se dissolve e some.

Lear e o Sábio

Reler Rei Lear é um prazer acima da média dos prazeres estéticos, tão bem-vindos: mas encarar a sabedoria do Bobo é algo que me deixa pasmo, visto que, por vezes, acredito que eu seja sábio. Deveriam restringir a sabedoria apenas a algumas pessoas, para que pudéssemos consultá-las quando necessitados; e às outras, poderíamos falar de nossos medos, inseguranças e tragédias sem que lições pretensamente edificantes fossem disparadas contra nós. As pessoas até podem ser muito sábias dentro de si; mas quando resolvem concatenar sua sabedoria e expressá-la, seja em atitudes ou em quaisquer idiomas, falham desastrosamente na maioria das vezes.

Não é o caso deste Bobo:

Mark it, nuncle:
Have more than thou showest,
Speak less than thou knowest,
Lend less than thou owest,
Ride more than thou goest,
Learn more than thou trowest,
Set less than thou throwest,
Leave thy drink and thy whore
And keep in-a-door,
And thou shalt have more
Than two tens to a score.

[King Lear, I, 4]

Em português, algo como “Anota aí, tio: guarda mais do que mostras, fala menos do que sabes, empresta menos do que tens, anda mais a cavalo do que a pé, aprende mais do que acreditas, aposta menos do que tens, larga a bebida e a mulherada, mantém-te em casa e então terás mais que duas dezenas para contar”.

Pode parecer apenas mais uma dessas vidas saudáveis que pregam hoje em dia, mas há que se considerar o fato de, cenas antes, Lear ter dividido e entregado seu reino a suas filhas Goneril e Regan (expulsando Cordelia). Ao invés de pregar um estilo de vida, o Bobo faz uma bela brincadeira em afirmar que, antes de tudo, Lear precisa amar menos, principalmente suas filhas: as duas o rejeitam.

Em meio à tempestade, já completamente louco, Lear exorta ventos, cataratas, fogos sulfúreos e trovões, a destruir todos os vestígios de sua mal-sucedida existência. O Bobo, então, numa mistura de apelo e pilhéria, desconcerta-nos completamente:

O nuncle, court holy-water in a dry house is better than this rain-water out o’ door. Good nuncle, in, and ask thy daughters’ blessing: here’s a night pities neither wise man nor fool.

[III, 2]

“Tio, água benta numa casa seca é bem melhor que esta água de chuva ao ar livre. Entra, titio, e pede a bênção de tuas filhas: esta noite não tem dó nem de sábios nem de bobos.” Até as coisas sagradas são utilizadas para a brincadeira, algo como preferir a calma dos salões reais à incerteza da vida errante, à qual Lear agora está condenado. A tempestade não perdoa nem ao sábio, nem ao bobo. Mas quem será o bobo entre esses dois?

Quando chega o fiel Kent, novamente estamos em dúvida:

KENT
Who’s there?
FOOL
Marry, here’s grace and a cod-piece; that’s a wise man and a fool.

[III, 2]

“Quem está aí?”, pergunta Kent, e ouve uma resposta contundente: “Oras, aqui há majestade e uma braguilha; aqui há um sábio e um bobo.”

A mensagem está bem clara agora: é impossível saber qual dos dois é o sábio ou o bobo: em alguns momentos, são indistingüíveis. Mas quem chega a essa conclusão é o Bobo, com sua indeterminância entre aconselhar (algo em que teria sucesso, não fosse a loucura de Lear) e fazer as mais variadas gozações com Lear. Visivelmente, uma sabedoria das melhores, pois não ensina com “didáticas”; aprendamos enquanto os outros riem de nós.

Aprovados FUVEST 2008