relatório de leitura
Parei de ler O idiota na página 518 ao topar com este retrato:
O problema é que o homem “comum” inteligente, ainda que de passagem (e talvez até durante toda a sua vida) tenha se imaginado um homem genial e originalÃssimo, mesmo assim conserva em seu coração o vermezinho da dúvida, que chega a tal ponto que o homem inteligente à s vezes termina em absoluto desespero; se fica resignado, já o faz totalmente envenenado pela vaidade interiorizada. Pensando bem, quando mais não seja tomamos um extremo: na imensa maioria dessa categoria inteligente de pessoas, a coisa não se dá de maneira tão trágica; ao término dos anos estraga-se mais ou menos o fÃgado, e é só. Mas, não obstante, antes de aplacar-se e resignar-se, essas pessoas à s vezes levam tempo demais fazendo das suas, começando pela mocidade e indo até a idade da resignação, e tudo pelo desejo de originalidade. Verificam-se inclusive casos estranhos: devido ao desejo de originalidade, um homem honesto se dispõe até a cometer um ato vil; acontece até que um desses infelizes, não só honestos mas até bons, providência de sua famÃlia, sustenta e alimenta com seu trabalho não só seus familiares mas até estranhos, e o que acontece? Passa a vida inteira sem encontrar a paz! Para ele não é nem um pouco tranqüilizadora nem consoladora a idéia de que ele cumpriu tão bem com suas obrigações humanas; ocorre inclusive o contrário, ela até o irrita: “Eis, dir-se-ia, por que eu desperdicei toda a minha vida, eis o que me atou de pés e mãos, eis o que me impediu de descobrir a pólvora! Não fosse isso, é possÃvel que eu tivesse forçosamente descoberto ou a pólvora, ou a América - ainda não sei com certeza o quê, só sei que forçosamente teria descoberto!”. O mais sintomático nesses senhores é que, ao longo de toda a vida, de maneira nenhuma eles efetivamente conseguem saber ao certo o que exatamente precisam tanto descobrir: a pólvora ou a América? Mas os sofrimentos, as nostalgias do objeto do descobrimento, palavra, estariam à altura de um Colombo ou Galileu.
Dostoiévski somente se esqueceu de divulgar a última esperança do homem acima retratado: este pode, para sempre, acreditar que não lhe é possÃvel saber se foi ou não foi um gênio.
Agora continuarei a ler.
VinÃcius :: Feb.08.2008 :: Convicções :: No Comments »