nós, os (pretensos) crÃticos
Nós, os crÃticos de arte. Sim, me incluo nessa categoria, e coloco entre parênteses o “pretenso” única e exclusivamente para mim, não quero questionar ninguém. Se me incluo é porque, de certa forma, é o fim para que faço faculdade - espero que ninguém faça Letras para ser contista, romancista, poeta, é mais provável que fracasse. Quero ser crÃtico literário, mas algumas dúvidas persistem.
Li recentemente Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister; recomendo. Goethe nos apresenta Wilhelm, um jovem que acredita possuir vocação para o teatro. Passa mais da metade do livro aperfeiçoando-se na dramaturgia, mas quando finalmente consegue uma atuação magistral (no papel de Hamlet), descobre que sua vocação é um “erro” incentivado por terceiros (a Sociedade da Torre) para que, depois de atingir o topo como ator, Wilhelm se convencesse de que não possuÃa talento.
Nós não temos uma Sociedade da Torre para mostrar o caminho. Não temos ninguém que diga: “você está errado, mude de sonho”. Ou melhor, até temos, mas não podemos confiar em ninguém tão facilmente. Ninguém nos observou toda nossa vida (como fez a Sociedade com Wilhelm) para saber se tÃnhamos ou não a chance de ser o que queremos. Ouvimos aos outros com dedicação, mas é impossÃvel garantir que estão certos. Freqüentemente nos enganamos.
Voltando a nós, os crÃticos. Buscar motivações para nossa atividade literária, de certa forma literatura de segunda mão, é, na minha opinião, desnecessário e até desonesto. Qual a motivação para alguém escrever um romance, um poema? Oras, podemos repetir cada argumento, cada um deles, como se fosse a verdade absoluta. Não responde a principal pergunta: por que escrever sobre um poema, e não um poema? Seria a frustração a maior motivação para um crÃtico literário?
Sabe, já falei aqui que não tinha mais pretensão como literato. Não mesmo: minha pessoa, VinÃcius de Melo Justo, não precisa nem pode precisar fazer literatura para viver tranqüilo. Já acreditei ser necessário; eram apenas vontadezinhas auto-infligidas. Desejo de repetir o sucesso estético de outros, ou melhor, fazer o meu próprio sucesso. Para onde isso me leva? Lugar nenhum.
Mas e a crÃtica? Aà entramos em outro terreno. Muito curioso, por sinal. E remonto a outra leitura: O Ano da Morte de Ricardo Reis. Gosto muito de Saramago, não sei porquê. Ele é bom, mas tinha tudo para me desagradar de algum jeito. Um dia eu explico isso melhor. Voltando.
Durante a leitura do livro, senti várias coisas estranhas. A primeira foi uma necessidade de parar de ler o livro no meio de uma frase e imaginar. Imaginei Saramago, sentado em uma cadeira, apoiando o corpo sobre uma escrivaninha onde rabiscava um trecho do livro. Ele não incluiu o trecho no livro. Retirou. Eu soube o que ele escreveu na hora, mas quando fui ler de novo, vi que não estava no lugar exato onde deveria estar, no meio daquela frase. Aos poucos a frase rabiscada se apagou na memória.
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Eu devia falar assim sobre um livro? Não, eu deveria sobriamente analisar a composição do livro e dizer se ele é ou não bom. Mas só senti necessidade de falar sobre o livro depois de imaginar Saramago riscando um trecho que só eu e ele lemos do livro, um trecho óbvio, mal escrito, justamente retirado. Minha obrigação é escrever esse trecho de novo. Tentar me lembrar. Esse trecho vai ser a primeira frase de um texto sobre o livro.
***
Tem gente que vai rir lendo este texto, pelas mais diversas razões. Ficarei feliz com cada uma das risadas, mesmo que dirigidas à minha pessoa. Para concluir: penso que eu, tendo escolhido falar sobre obras de arte, escolhi também ser pego por elas. Eu só sirvo para fazer bem aos bons autores. Se houver algum grande poeta, eu devo divulgá-lo. Se houver um grande romancista, devo incensá-lo. Minha obrigação é para com eles. Devo escolher os livros certos e sumir, para que outros melhores que eu brilhem.
VinÃcius :: Feb.17.2008 :: Naturalismos :: 5 Comments »
Isso me lembrou uma passagem do “Cartas a um jovem poeta”, do Rilke, em que ele diz, mais ou menos assim, ao poeta: “Descubra se poderia viver sem escrever, e se não puder, continue escrevendo”.
Quando o Rômulo me falou, mais cedo, no bar, que havia gostado do seu último post, eu imaginei de relance os motivos. Nós dois sabemos que o Rômulo é um chato no que tange a se agradar das coisas. Bem, agora que li o post eu julgo que o Rômulo, ou qualquer outra pessoa de bem, não poderia não ter gostado do texto, pois esse seu texto, VinÃcius, é dotado daquela gota de sabedoria que você verte vezenquando, despercebidamente, talvez; aquela gota produzida pela glândula do bom senso ereto e sincero, seco para consigo mesmo, dotado de verdade, lógico.
Há objeções a fazer quanto à s coisas que você disse, mas, se assim é, deve-se ao fato de você “ter dito”, finalmente!, coisas; logo, são um bom sintoma as objeções que alguém queira fazer.
O que eu objeto nesse texto é o fato de você manter a dicotomia escritor/crÃtico literário analogamente a brilho/falta de luz, coisa primária/coisa secundária. Ora, eu não acho que crÃtica seja literatura de segunda mão, eu acho que crÃtica literária e literatura são coisas completamente diferentes; não são opostas pois não pertencem à mesma reta, entende? Literatura é arte; crÃtica é ciência. Literatura tem comprometimento com o verossÃmil e blá blá blá, a crÃtica com alguma espécie de verdade. Eu arriscaria dizer que a crÃtica está para a filosofia enquanto a literatura está para o universo. Você ouve dizer por aÃ, ou ousa dizer você mesmo, que a filosofia é um universo de segunda mão? Ok, a analogia falha por desconsiderar que em crÃtica/literatura o canal (linguagem) é o mesmo… Mas, ainda assim…
Ser crÃtico literário é uma profissão, ser escritor é outra. Dizer que um é o outro diminuÃdo é até possÃvel, mas fica no mesmo nÃvel de afirmações como “ser pedreiro é menos prestigioso que ser arquiteto”. Depende do seu ponto de vista.
Ainda no Rilke, me deparei hoje com outro trecho conveniente do “Cartas…”:
“Não há nada menos apropriado para tocar numa obra de arte do que palavras de crÃtica (…). As coisas estão longe de serem todas tão tangÃveis e dizÃveis quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimÃvel e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou. Menos suscetÃveis de expressão do que qualquer outra coisa são as obras de arte.”
Só que também é sacanagem reduzir a crÃtica literária a ‘ciência’. Não é todo crÃtico que pretende ser cientista - aliás, eu arriscaria dizer que só os mais bobinhos pretendem. É justamente para buscar motivações para a atividade crÃtica que esse tipo de comparação é feita; e é justamente esse tipo de atitude que o VinÃcius repudia.
A literatura e a crÃtica são retas distintas, é verdade, mas elas podem se cruzar à s vezes, assim como a literatura e o jornalismo, ou a literatura e o botanismo, ou a literatura e a culinária; arte é uma qualidade um tanto imprevisÃvel.
Blá-blá-blá, o Rômulo tá sempre certo. Dessa vez, sem ironias.