Arquivos
A ausência deste blog por um tempo foi justificada por uma passagem de uma semana em São Paulo que realizei de terça-feira a terça-feira passadas. Inclusive, nesta última terça, precisei levar meu computador de São Paulo para Sorocaba, devido a problemas técnicos. Curiosamente, este computador esteve por um ano - ou mais - desconectado da Internet, sendo utilizado apenas para o digitar de alguns trabalhos de faculdade. Toda esta introdução se faz necessária para explicar o tamanho de minha surpresa ao, remexendo nos arquivos deste computador, encontrar projetos bastante antigos de blogs e literaturas, coisas que ficaram apagadas e das quais talvez eu jamais me lembrasse não fosse a curiosidade hostil que exerci sobre algumas pastas misteriosas do disco rÃgido. Entretanto, poucos arquivos continham efetivamente alguma coisa, pois estavam muito mais repletos de sonhos e esquemas do que qualquer obra fechada. Todos os defeitos de meus planejamentos se verificavam ali: o primeiro, e mais grave: sempre acredito que irei me lembrar de tudo que imagino e por isso reduzo minhas idéias à s frases mais sintéticas e essenciais, sem expor a mim mesmo os caminhos do raciocÃnio. O leitor pode considerar isso de certa forma algo benéfico, pois seria uma limpeza de pensamento a que poucos aspiram e menos pessoas ainda atingem. Entretanto, só posso me lamentar; encontrando apenas a sÃntese meio rarefeita, não posso fazer nada mais com aquele fragmento além de repisar-lhe a verdade e incorrer nas mais cruéis tautologias.
O segundo e o terceiro defeitos de meu planejamento podem ser vistos a partir da análise de um desses fragmentos sintéticos:
Talvez fosse este o motivo que dava tal semblante ao homem: era um ritualista, sabia o que ocorreria. Já fizera aquele ritual do lado oposto; recordava-se: era mais fácil. Se a salvação da tribo passa por um sacrifÃcio, ele o aceita de bom grado. Não há dúvida para quem retorna.
Nota-se claramente a inocência de uma criança nestes escritos que consideram ser preferÃvel o “terror conhecido” ao “terror desconhecido”, como se o choque que se sente da primeira vez com algo sempre fosse decrescente, tornando-se em algum momento quase inócuo. Ou melhor, não exatamente “quase”: “não há dúvida para quem retorna”. Voltando a este texto, tenho muitas dúvidas e, devo dizer, sinto um choque cada vez maior do que sentiria da vez anterior. Por fim, nada de muito belo vem deste trecho. Notem a deselegância da passagem; parece ter sido escrita à s pressas, embora eu tenha quase certeza de que meditei um bocado para escrevê-la; servem de provas para tal hipótese a presença de uma pontuação significativa, algo que não consegui tão facilmente em nenhum de meus textos, mesmo os de três anos atrás.
Ainda tento retirar algum significado de cada uma das palavras que escrevi, mesmo as mais simplórias, mas acredito ter chegado a uma conclusão nada animadora: é possÃvel encontrar quaisquer conjeturas nestes pequenos trechos, por mais fracos que sejam, e relacioná-las infinitamente com todas as outras frações que reconhecermos como existentes e possÃveis. Caso um tal trecho não seja reconhecido como existente e possÃvel, torna-se algo de tão original que se funde ao autor de maneira inextricável, e o autor torna-se a mediação para as coisas existentes e possÃveis; caso não exista autor, o texto pode fundir-se a um Zeitgeist especÃfico e, enfim, integrar-se: as coisas do universo aspiram à esta integração que nem sempre é desejável: eu, por exemplo, não desejo tais fragmentos e por isso não lhes reconheço existência própria: serão para sempre somente meus erros.
VinÃcius :: Jan.19.2008 :: Relances, Partituras, Ensaios :: No Comments »