Os dois reis e os dois labirintos, conto de Borges
Contam os homens dignos de fé (Alá, porém, sabe mais) que nos primeiros dias houve um rei nas ilhas da Babilônia que reuniu seus arquitetos e magos e os mandou construir um labirinto tão incerto e sutil que os varões mais prudentes não se aventurariam a entrar, e os que entrassem se perderiam. Esta obra era um escândalo, pois a confusão e a maravilha são operações próprias de Deus, e não dos homens. Com o andar do tempo, veio à sua corte um rei dos árabes, e o rei da Babilônia (para fazer chacota da simplicidade de seu hóspede) o fez penetrar no labirinto, onde vagou ofendido e confundido até o declÃnio da tarde. Então implorou por socorro divino e encontrou a porta. Seus lábios não proferiram nenhuma queixa, mas disse ao rei da Babilônia que tinha um labirinto melhor na Arábia e que, se Deus era servido, o faria conhecê-lo algum dia. Retornou à Arábia, reuniu seus capitães e seus alcaides e destruiu os reinos da Babilônia com tão venturosa fortuna que derrubou seus castelos, dividiu sua gente e fez ao mesmo rei prisioneiro. Amarrou-o em cima de um veloz camelo e levou-o ao deserto. Cavalgaram três dias, e disse-lhe: “Ó, rei do tempo e substância e cifra do século! Na Babilônia, quiseste fazer-me perdido em um labirinto de bronze com muitas escadas, portas e muros; agora o Poderoso quis por bem que te mostre o meu, onde não há escadas a subir, nem portas a forçar, nem fatigantes galerias a percorrer, nem muros que te impeçam o passo”.
Então desatou-lhe as mãos e o abandonou no meio do deserto, onde morreu de fome e de sede. A glória esteja com Aquele que não morre.
Este é um dos mais curtos contos de Jorge Luis Borges, presente em El Aleph. Ao lê-lo tive vontade de traduzi-lo, por seu tamanho reduzido (o que facilita minha empresa), singeleza (que cria a vontade de que todos o conheçam) e complexidade (que permite que cada um conheça um conto diferente do que eu conheci). Espero ter feito um trabalho aceitável.
VinÃcius :: Jan.01.2008 :: Partituras :: 5 Comments »
Põe um link pro original aê, manow.
Por sorte (?) li o conto antes de ler seu comentário, ou seja, antes de saber que era tradução sua. Pensando, pois, tratar-se de uma tradução qualquer, critiquei mentalmente:
* [i]adentrar ao labirinto[/i] - Adentrar, verbo transitivo direto. Na verdade, foda-se a regência correta, o problema é que soa feio mesmo.
* [i]se Deus era servido[/i] - Estranho. Qual a palavra para “servido” no original?
* [i]rompeu sua gente [/i] - Idem comentário acima (”rompeu”).
* Virgulação. Foi mantida estritamente a do original? Eu tenho problemas com vÃrgula antes de “e”, mas se foi o Borges que quis assim…
Té mais!!!
Também li sem saber que era tradução sua. Apenas me incomodou o “adentrar ao”; o mais entendi como coisa do Borges mesmo.
E eu não conhecia o conto, que é muito bom.
Li o conto, como todos, sem saber que era sua a tradução. Muito interessante. As mudanças feitas após as indicações da Lorena melhoraram o trabalho (principalmente o “adentrou” substituÃdo por “penetrou” que realmente não soava bem).
No mais, pareceu-me um conto muito e complexamente construÃdo na, como você bem apontou, sua singeleza. Não conheço muito Borges, mais um rombo em minha formação, mas a estrutura deste conto lembra-me aforismos. Esta estrutura é constante em El Aleph?
Talvez esteja perguntando algo óbvio e, portanto, petelecos na orelha serão bem vindos.
Nem sempre as “regras” das vÃrgulas são semelhantes entre as lÃnguas. No francês, por exemplo, nada menos absurdo do que separar sujeito e predicado. Algo parecido deve se passar com o espanhol. Mas achei a tradução muito boa, sobretudo porque Borges é cheio de pegadinhas.