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Archive for January, 2008

Mais arquivos

Hoje, só “dei um tapa” neste conto e o postei. Espero que gostem.

rotinas #1

Enquanto passam os dias de rotinas levemente repetidas, um pequeno barco viaja na mente, simulando movimentos; o barco não se move nunca na direção de um destino pré-estabelecido, mas, em meio ao mar, se descobre o destino em si. O barco se considera sempre apenas um projétil, carregando pelo vento a perfeita carga; prefiro o barco levado pelo vento, de enorme mastro que se desdobra em velas monstruosamente costuradas por cordas na madeira-de-lei, matéria-prima da estrutura - e o abaulado casco, refletindo a majestade humana passeando pelo oceano. E é triste - uma bandeira pátria está no topo do navio; depende de suas cores se devemos atacá-la. O peso de um pensamento, o peso de uma enorme nau de nação inimiga.

um ator

Demand me nothing: what you know, you know:
From this time forth I never will speak word.

Quisera eu terminar todas minhas falas não com estes dois versos, mas com o sentimento semelhante ao de Iago ao pronunciá-los. Enquanto Othello se desespera com o crime cometido - matara Desdemona e se suicidaria logo após -, os outros personagens reconhecem em Iago o símbolo do mal, começam a se perguntar sobre as razões para que um alferes tão leal tenha resolvido trair o próprio senhor e induzi-lo ao assassínio. Não há explicação além da mais simples que posso imaginar: é a cena, é a peça que exige de Iago tal perfídia. Ele está na peça, rouba a cena, mas a peça assim lhe fez, e ele assim lhe faz. O fim da peça só poderia ser este: Iago será preso, julgado, enforcado; seu crime marcará o tempo; and nothing more.

Demand me nothing: what you know, you know:
From this time forth I never will speak word.

Arquivos

A ausência deste blog por um tempo foi justificada por uma passagem de uma semana em São Paulo que realizei de terça-feira a terça-feira passadas. Inclusive, nesta última terça, precisei levar meu computador de São Paulo para Sorocaba, devido a problemas técnicos. Curiosamente, este computador esteve por um ano - ou mais - desconectado da Internet, sendo utilizado apenas para o digitar de alguns trabalhos de faculdade. Toda esta introdução se faz necessária para explicar o tamanho de minha surpresa ao, remexendo nos arquivos deste computador, encontrar projetos bastante antigos de blogs e literaturas, coisas que ficaram apagadas e das quais talvez eu jamais me lembrasse não fosse a curiosidade hostil que exerci sobre algumas pastas misteriosas do disco rígido. Entretanto, poucos arquivos continham efetivamente alguma coisa, pois estavam muito mais repletos de sonhos e esquemas do que qualquer obra fechada. Todos os defeitos de meus planejamentos se verificavam ali: o primeiro, e mais grave: sempre acredito que irei me lembrar de tudo que imagino e por isso reduzo minhas idéias às frases mais sintéticas e essenciais, sem expor a mim mesmo os caminhos do raciocínio. O leitor pode considerar isso de certa forma algo benéfico, pois seria uma limpeza de pensamento a que poucos aspiram e menos pessoas ainda atingem. Entretanto, só posso me lamentar; encontrando apenas a síntese meio rarefeita, não posso fazer nada mais com aquele fragmento além de repisar-lhe a verdade e incorrer nas mais cruéis tautologias.

O segundo e o terceiro defeitos de meu planejamento podem ser vistos a partir da análise de um desses fragmentos sintéticos:

Talvez fosse este o motivo que dava tal semblante ao homem: era um ritualista, sabia o que ocorreria. Já fizera aquele ritual do lado oposto; recordava-se: era mais fácil. Se a salvação da tribo passa por um sacrifício, ele o aceita de bom grado. Não há dúvida para quem retorna.

Nota-se claramente a inocência de uma criança nestes escritos que consideram ser preferível o “terror conhecido” ao “terror desconhecido”, como se o choque que se sente da primeira vez com algo sempre fosse decrescente, tornando-se em algum momento quase inócuo. Ou melhor, não exatamente “quase”: “não há dúvida para quem retorna”. Voltando a este texto, tenho muitas dúvidas e, devo dizer, sinto um choque cada vez maior do que sentiria da vez anterior. Por fim, nada de muito belo vem deste trecho. Notem a deselegância da passagem; parece ter sido escrita às pressas, embora eu tenha quase certeza de que meditei um bocado para escrevê-la; servem de provas para tal hipótese a presença de uma pontuação significativa, algo que não consegui tão facilmente em nenhum de meus textos, mesmo os de três anos atrás.

Ainda tento retirar algum significado de cada uma das palavras que escrevi, mesmo as mais simplórias, mas acredito ter chegado a uma conclusão nada animadora: é possível encontrar quaisquer conjeturas nestes pequenos trechos, por mais fracos que sejam, e relacioná-las infinitamente com todas as outras frações que reconhecermos como existentes e possíveis. Caso um tal trecho não seja reconhecido como existente e possível, torna-se algo de tão original que se funde ao autor de maneira inextricável, e o autor torna-se a mediação para as coisas existentes e possíveis; caso não exista autor, o texto pode fundir-se a um Zeitgeist específico e, enfim, integrar-se: as coisas do universo aspiram à esta integração que nem sempre é desejável: eu, por exemplo, não desejo tais fragmentos e por isso não lhes reconheço existência própria: serão para sempre somente meus erros.

pensei na rua, ao pular do ônibus:

Mulher alguma ficará bela em um vestido de noiva.

Os dois reis e os dois labirintos, conto de Borges

Contam os homens dignos de fé (Alá, porém, sabe mais) que nos primeiros dias houve um rei nas ilhas da Babilônia que reuniu seus arquitetos e magos e os mandou construir um labirinto tão incerto e sutil que os varões mais prudentes não se aventurariam a entrar, e os que entrassem se perderiam. Esta obra era um escândalo, pois a confusão e a maravilha são operações próprias de Deus, e não dos homens. Com o andar do tempo, veio à sua corte um rei dos árabes, e o rei da Babilônia (para fazer chacota da simplicidade de seu hóspede) o fez penetrar no labirinto, onde vagou ofendido e confundido até o declínio da tarde. Então implorou por socorro divino e encontrou a porta. Seus lábios não proferiram nenhuma queixa, mas disse ao rei da Babilônia que tinha um labirinto melhor na Arábia e que, se Deus era servido, o faria conhecê-lo algum dia. Retornou à Arábia, reuniu seus capitães e seus alcaides e destruiu os reinos da Babilônia com tão venturosa fortuna que derrubou seus castelos, dividiu sua gente e fez ao mesmo rei prisioneiro. Amarrou-o em cima de um veloz camelo e levou-o ao deserto. Cavalgaram três dias, e disse-lhe: “Ó, rei do tempo e substância e cifra do século! Na Babilônia, quiseste fazer-me perdido em um labirinto de bronze com muitas escadas, portas e muros; agora o Poderoso quis por bem que te mostre o meu, onde não há escadas a subir, nem portas a forçar, nem fatigantes galerias a percorrer, nem muros que te impeçam o passo”.

Então desatou-lhe as mãos e o abandonou no meio do deserto, onde morreu de fome e de sede. A glória esteja com Aquele que não morre.

Este é um dos mais curtos contos de Jorge Luis Borges, presente em El Aleph. Ao lê-lo tive vontade de traduzi-lo, por seu tamanho reduzido (o que facilita minha empresa), singeleza (que cria a vontade de que todos o conheçam) e complexidade (que permite que cada um conheça um conto diferente do que eu conheci). Espero ter feito um trabalho aceitável.

Aprovados FUVEST 2008