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Archive for December, 2007

Natal

Passei o Natal em casa de minha tia. Meu primo acaba de ser pai - um belo menino, de seus quase três meses. E todos, todos que o vêem, ficam paparicando a criança. Num momento notei que, se eu fosse o pai, não ia gostar nada de tanta gente em cima de meu filho, principalmente fazendo caretas e falando num miguxês apequenado. Acho que se tiver um filho vou me esconder dos parentes por uns cinco anos com ele. Ou no máximo visitas breves, sei lá. Comentei com minha mãe e tive aprovação. O único risco é se depois o pirralho não gostar tanto dos parentes quanto gostaria se tivesse contato desde o berço. Mas é um risco pequeno - criança, quando quer, gosta.

Отец Сергий

No dia de meu retorno a Sorocaba, 21 de dezembro, acabei por ler uma novela de Tolstói, durante a viagem, chamada Padre Sérgio. Impressionou-me a capacidade do autor de mostrar que, por mais que tentasse, o referido Padre Sérgio jamais conseguiria, por melhor que fosse seu ímpeto, impedir que sentimentos mundanos se sobrepuzessem às suas aspirações de viver dedicando-se a Deus. O herói, desde o início da novela, caracteriza-se por ser orgulhoso e de ambição perfeccionista. Entretanto, jamais se realiza em alguma atividade, rejeitando a alta sociedade, o monastério, a vida como eremita, apesar de tudo que faz para tentar chegar até cada um destes patamares. No fim, acaba por se redimir ao notar que não vivia para Deus, e sim para os outros, o que o tornava falho e inconcluso. Parou de considerar as opiniões dos outros e passou a viver peregrino, conformando-se com as chacotas e bravatas dirigidas à sua pessoa. Tornou-se, enfim, na hagiografia proposta por Liev Tolstói, um quase santo.

Segundo muitos comentadores, o fim não convence: Tolstói estaria tentando fazer da novela um panfleto para divulgar suas idéias sobre abnegação, humildade e devoção - que no geral se resumiam, em sua conduta particular, a ser um baita egocêntrico, arrogante, de vista obnubilada pela “vã glória de mandar”. Tolstói, em seus escritos religiosos, até transmite alguma esperança de dias melhores, para aqueles que querem se ver no caminho de Deus. Mas não consegue em Padre Sérgio. Quem lê se sente incomodado com o final redentor porque sabe que, depois do final, Sérgio provavelmente se daria conta de que Deus é, para ele, uma pessoa - magnífica, mas ainda pessoa -, uma pessoa que ele estava tentando em vão impressionar. O círculo vicioso não tem fim. Quando passasse a acreditar nisso com todas as forças, veria o motivo de todas as suas ações serem sempre facas-de-dois-gumes, e a vida humana um processo constante do que chamam de razor’s edge, fio da navalha: não há bem, não há mal, há apenas culpa, ou regozijo, do qual o ser se sentirá culpado posteriormente.

Não preciso dizer que saí da leitura um tanto perturbado.

reflexão sobre a faculdade

Curta, esta reflexão. A faculdade é tratada como um lar, um segundo lar, o local onde posso refletir, inclusive acerca da faculdade. Pouco sai destas reflexões que, de alguma maneira, perpetuam-se como perda de tempo. Não mais penso em ganhar tempo com as coisas, por mais que precise disso; mas pensei nesta reflexão como parte de outra reflexão, mais difícil de explicar e menos interessante para o leitor.

explicação

Não pretendia, ao fazer este blog, postar poemas meus. Mas duas reflexões me fizeram alterar esta premissa.

A primeira foi que me conscientizei de que eu morria de vontade de postá-los, e só não o fazia por medo, por vergonha. Medo de ver críticas, vergonha de parecer (ser/estar) um idiota tentando ser poeta. E daí vem a segunda.

Esta, mais serena que a primeira, é simples: não tenho mais pretensão de, um dia, publicar poesia. Nem nada na ordem de literatura propriamente dita. Se eu escrever alguma coisa, será mais para mim do que para os outros (literatura é também para os outros; ficar escrevendo é como jogar videogame). A terra me será leve, e vou à crítica da literatura.

Logo, não deveria haver problemas em postar poemas. É até melhor: se eu não tiver um post pronto, ou idéia, e quiser escrever, pego um poema, dou-lhe um “trato” e jogo aqui. Cão mijando no escuro.

mulher cabralina

Olhar a mulher: sua forma
amplamente disfarçada,
forma completa, revolta,
forma distante, tentada.

Ouvir a mulher: empresta,
no falar, gestos aos sons,
trejeitos de partitura,
de seus tons e semitons.

Sentir a mulher: seu odor,
fato marcante, de frutas;
engrenagem nas narinas,
cheiro de flores ocultas.

Tocar a mulher: àqueles
que vêem, escutam, respiram,
pouco resta por fazer;
ao ser sonhado atingiram.

Portugal, 11 de junho de 1915

Por esses dias me lembrei disto:

De aqui de Portugal, todas as épocas no meu cérebro,
Saúdo-te, Walt, saúdo-te, meu irmão em Universo,
Eu, de monóculo e casaco exageradamente cintado,
Não sou indigno de ti, bem o sabes, Walt,
Não sou indigno de ti, basta saudar-te para o não ser…
Eu tão contíguo à inércia, tão facilmente cheio de tédio,
Sou dos teus, tu bem sabes, e compreendo-te e amo-te,
E embora te não conhecesse, nascido pelo ano em que morrias,
Sei que me amaste também, que me conheceste, e estou contente.
Sei que me conheceste, que me contemplaste e me explicaste,
Sei que é isso que eu sou, quer em Brooklyn Ferry dez anos antes de eu nascer,
Quer pela Rua do Ouro acima pensando em tudo que não é a Rua do Ouro,
E conforme tu sentiste tudo, sinto tudo, e cá estamos de mãos dadas,
De mãos dadas, Walt, de mãos dadas, dançando o universo na alma.

Não sei porquê, mas me lembrei.

Aprovados FUVEST 2008