Posts RSS Comments RSS 61 Posts and 87 Comments till now

Archive for November, 2007

argumento magistral, ou como ser ignorante (via PT)

Vejam até que ponto chega a estupidez a serviço da estupidez:

O ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso chamou o Presidente Lula de analfabeto.

. Disse que o Presidente Lula não sabe falar a Língua Portuguesa (clique aqui).

. Como no Brasil, quem é analfabeto é pobre, negro e nordestino…

. E como, no Brasil, quem não sabe usar a Língua Portuguesa é o pobre, o negro e o nordestino, Fernando Henrique Cardoso é racista e tem preconceito social…

. Se ele exprime esses sentimentos, com tanta clareza, porque é um despeitado – como supõe o Ministro Tarso Genro – ou que percebe que vai entrar para a História como uma nota de pé de página do movimento neo-liberal na América Latina, isso pouco importa.

Retirado da página (?!?) de Paulo Henrique Amorim, uma pessoa que consegue defender Edir Macedo (talvez por obrigação contratual) em um libelo contra a Rede Globo. A força do silogismo acima só não é mais surpreendente do que o ethos de loser do pseudo-jornalista: apesar de lamber as botas de Lula, nunca conseguiu uma entrevista com o presidente.

Pô, até meu pai falou com o Lula, na época do sindicato.

,,

Uma das coisas que, hoje em dia, mais tenho dificuldade é em arranjar tempo para ler o que eu quero ler, e não o que eu preciso ou precisarei ler.

Parece ser apenas uma tristeza imbecil; afinal, para a maioria das pessoas ler é no máximo um passatempo. No meu caso, garantiu a sanidade mental nos últimos anos e sem dúvida determinou dezenas de aspectos de minha personalidade.

Há, portanto, uma vontade imensa de adensar e ampliar esta personalidade, algo que não se dá espontaneamente. É preciso leituras que realmente modifiquem algo, que removam uma simplificação produzida por minha mente ou que me deixem tão perturbado a ponto de precisar parar tudo e meditar sobre o que li e o que preciso fazer em seguida.

Não poder, por dezenas de motivos, realizar a leitura como formação é negar à minha pessoa o alicerce de sua história - é pedir para se sentir solitário.

um sonho

Na madrugada de quarta para quinta, esta semana, houve um trecho de um sonho que, a despeito de não ter sido nem um décimo do tempo que me lembro de ter sonhado, foi o único trecho que se fixou na minha memória. Um cachorro, andando por uma calçada, vem na minha direção. No meio do caminho, começa a urinar (vi algo semelhante na noite de quarta-feira). Desvio-me dele e o xingo. Ele então começa a vir de encontro a mim, tentando me acertar, apesar de diminuir de tamanho gradativamente. No entanto, vai ficando cada vez menor, e não consigo acertar-lhe um chute. Paradoxalmente, quando atinge o tamanho de um polegar, acerto-lhe o chute: neste momento, ele se transforma em um inseto branco e o perco de vista.

Emerson #1

There is one mind common to all individual men. Every man is an inlet to the same and to all of the same. He that is once admitted to the right of reason is made a freeman of the whole estate. What Plato has thought, he may think; what a saint has felt, he may feel; what at any time has be-fallen any man, he can understand. Who hath access to this universal mind is a party to all that is or can be done, for this is the only and sovereign agent.

Começa assim o primeiro ensaio do segundo livro de Ralph Waldo Emerson. Nascido em Boston no ano de 1803, Emerson é um humanista no sentido apaixonado da palavra: acredita na plena possibilidade do ser humano alcançar níveis bastante altos de compreensão do universo.

No trecho acima, Emerson propõe a existência de um padrão para a consciência de cada ser humano. Reflexo das idéias libertárias da Revolução Americana, que construiu o primeiro país democrata (no sentido que hoje damos à palavra). A democracia é uma das maiores auto-referências, até hoje, dos Estados Unidos. É possível dizer que isso só foi possível com o poder reflexivo não só dos ensaios emersonianos, como também da poesia de Walt Whitman e do posicionamento político de Abraham Lincoln, entre muitos outros.

O conceito de “História” de Emerson é constituído desta noção democrática, de que todo homem pode conseguir pensar o que Platão pensara. Mais do que isso: o homem, enquanto ser definido no espaço e no tempo é, não obstante esta limitação, uma “enciclopédia inteira de fatos”. A História nada mais é do que o registro inevitável, feito era após era, da mente individual que é parte constituinte de cada homem. Ou seja: os fatos históricos já estão todos representados no próprio ser humano, cuja vida os ilustra:

I believe in Eternity. I can find Greece, Asia, Italy, Spain and the Islands – the genius and creative principle of each and of all eras, in my own mind. (…) All history becomes subjective; in other words there is properly no history, only biography.

Dando tal valor ao que reside na mente do homem, Emerson está sugerindo que a consciência é, por si só, um valor universal, medida de toda e qualquer ação humana. Este pensamento apresenta uma composição metonímica, da qual o indivíduo é parte e a “mente comum” é todo. Assim que esteja presente a razão na mente humana, esta será parte de tudo que a humanidade já conquistou, sentiu e realizou. É claro que o ser conservará sua individualidade por meio, evidentemente, de suas diferenças em relação às outras partes.

The difference between men is in their principle of association. Some men classify objects by color and size and other accidents of appearance; others by intrinsic likeness, or by the relation of cause and effect. The progress of the intellect is to the clearer vision of causes, which neglects surface differences. To the poet, to the philosopher, to the saint, all things are friendly and sacred, all events profitable, all days holy, all men divine. For the eye is fastened on the life, and slights the circumstance. Every chemical substance, every plant, every animal in its growth, teaches the unity of cause, the variety of appearance. (grifo meu)

A unidade de causa sugere um valor absoluto, uma enteléquia da consciência humana - que proporciona a todo ser múltiplas possibilidades -, mas sem esquecer que a variedade de aparências é, em si, uma definição de pureza. Quanto mais variedade incorporada, mais próxima da unidade de causa - e do valor absoluto - estará o ser humano. Por isso a valorização de poetas, filósofos e santos no trecho acima.

É impossível não deixar de se lembrar, quando se lê a frase sobre o poeta (To the poet (…) all things are friendly and sacred, all events profitable, all days holy, all men divine.), da poesia de Walt Whitman. Só para breve recordação, alguns versos esparsos de Song of myself:

I am the poet of the Body and I am the poet of the Soul,
The pleasures of heaven are with me and the pains of hell are with me,

(…)
I am not the poet of goodness only, I do not decline to be the poet of wickedness also.

I know I have the best of time and space, and was never measured and never will be measured.

Tudo isso, no entanto, não é garantia de nada. Afinal, o poeta, o filosófo, o santo, são criaturas que têm outra relação com as coisas, muito diferente (e mais rica e ampla) do que a maior parte das pessoas. O caminho para atingir a tal “mente comum” não passa necessariamente pelos livros, ou pela compreensão científica, como Emerson assinala no final do ensaio:

…but the path of science and of letters is not the way into nature. The idiot, the Indian, the child and unschooled farmer’s boy stand nearer to the light by which nature is to be read, than the dissector and the antiquary.

Uma posição romântica, sem dúvida; muito distante do atual cientificismo pseudo-evolucional. Talvez por isso seja tão boa aos meus olhos.

Link para o ensaio completo (em inglês) aqui.

-términos-

Não deixa de ser irônico o fato de, quando começo a escrever qualquer coisa, sentir muita sede. Não consigo mais conviver comigo mesmo sem uma garrafa de refrigerante na geladeira. Observo que o momento da escrita é sempre muito próximo da seca - então levanto-me e bebo. Irônico pois recorrências como esta, que conjugam corpo e psicologia, são sempre falsas dualidades; afinal a escrita só flui durante o desenrolar de alguma música.

aporia

Na esteira do comentário no post anterior, sugeri uma reflexão para mim mesmo: há problema na confessionalidade? Claro que há, me respondi, como há problema em tudo. Então, pensei, isso não é nada desejável. Claro que não, respondi novamente. Nada desejável.

Lembro-me

Fazia tempo que eu não escrevia nada aqui, nem em algum outro lugar. Fez pouca diferença. Não padeço da necessidade vital de que falava Rilke de escrever a todo custo - só escrevo quando me é conveniente. Está sendo agora. Falo de mim mesmo em cada linha, não há porque ficar escrevendo todo dia. Pensar é mais gostoso. Dá até para imaginar alguns pensamentos seus escritos; você até tenta escrever poemas, às vezes, com o que você pensa. Balela. Deve haver um daemon que se encarrega somente da escrita dos poemas de todo o universo. O que Rilke achava que era liberdade era escravidão - vice-versa.

Aprovados FUVEST 2008