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Archive for September, 2007

another reflection

A obra de arte tornou-se ao mesmo tempo objeto de consumo e de reflexão. Para satisfazer a dupla demanda, forjou-se um Frankestein enorme, composto de diversos ideais aparentemente inofensivos: abertura da obra a sentidos e interpretações os mais diversos e contraditórios possíveis; quebra estilística, que faz com que não existam formas certas ou erradas; atenção ao admirador da arte, ou seja, compromisso comunicativo; incorporação do imaginário pop à lista de possibilidades da arte. Oras, cada idéia possui em si problemas graves. Vejamos quantos:

- a abertura da obra se dá, hoje em dia, basicamente por uma ausência, a priori, de significado. Esta ausência ocorre principalmente porque o artista não tem capacidade nem mesmo para se iludir de um significado em particular; acredita piamente que a arte não precisa de significado intencional, e por isso nem mesmo pensa enquanto faz a obra (ou, se pensa, o faz muito mal).

- a quebra estilística é o único meio de evitar o esgotamento de uma forma em específico, mas apenas da forma enquanto forma. Se eu traduzir Machado de Assis para o miguxês não haverá uma revolução do romance; na verdade, haverá somente uma hermetização inicial da linguagem que não altera o sentido. Vender deste modo uma obra como revolucionária, sendo que esta só transporta os clichês para uma nova linguagem, é algo de tão desonesto quanto vender cerveja em lata de refrigerante.

- toda obra de arte tem uma função comunicativa (principalmente quando publicada), mas só os medíocres se preocupam no tamanho do alcance logístico. As simplificações que decorrem da tentativa de dizer algo a todos acabam por limitar a arte de modo tão sufocante que ela já surge natimorta.

- por fim, o pior de todos os procedimentos: incorporar a cultura pop à obra. Naturalmente é a desculpa perfeita para erros de linguagem, opções absurdas e formulações abaixo da crítica. O artista diz que a obra possui elementos da cultura pop quando não passa de mais um produto (e de qualidade reduzida) desta cultura – é quando a metonímia faz o caminho inverso, e ao invés da obra conter o pop, na verdade o pop é que a contém.

Eu nem fui longe o suficiente, em parte por não ter preparo para tal. Mas só o que escrevi já deveria ser o bastante para quem ainda engana aos outros (e a si mesmo) a respeito de ser um artista. É louvável que se tente algo de tão nobre, mas para uma postura nobre é necessário pensar um pouco aristocraticamente. E isso significa: refletir sobre o que se está dizendo na obra, garantir que o estilo adotado não seja apenas um maneirismo decadente, impedir que a busca pelo sucesso se torne limitação e, principalmente, assumir os pecados cometidos e não jogar a responsabilidade para a incapacidade dos críticos de compreenderem a beleza de um sistema que é tudo, menos belo. Em suma: saber que existem valores estéticos. É a única profissão de fé a que o artista nunca escapa.

Isso tudo é o básico para alguém que queira fazer arte – inclusive para mim. Eu mesmo não respeitei, e não respeito, muitos pontos destes princípios; inclusive, este desrespeito (por vezes inconsciente) é um grande motivo da falta de qualidade da maioria esmagadora de minhas obras. Pelo menos ainda não tentei vender nenhuma delas, e duvido que faça isso tão cedo.

Inadequação

Quem olhasse para minha biblioteca particular – pequena, enxuta, mas lida e relida em boa parte – enganaria-se sobremaneira quanto ao meu thinkabout criticism. Olho para o lado: vejo sete livros de Antonio Candido, um de Alfredo Bosi, outro de Lafetá. Junto a eles, Adorno, Benjamin e, meio escondido, Lukács. Um Auerbach meio perdido termina de compor os casos mais imediatos; poderia acrescentar Wellek e outros, mas não faz muito sentido; como viram, a predominância da Escola de Frankfurt hegeliana e seus derivados hegelianos no Brasil é meio sintomática – evidencia onde estudo, qual a orientação de meus professores, mas não diz nada sobre a minha orientação. Não que eu tenha alguma formação sólida, mas Mikhail Bakhtin, Harold Bloom, Samuel Johnson, fariam bem mais sentido em minhas prateleiras – não tenho nenhum livro deles. Pelo menos tenho Alcides Villaça (já falei sobre ele aqui); meu modelo de leitura de poesia.

crime e castigo

A McLaren foi punida com a exclusão do campeonato de construtores, mas não do campeonato de pilotos. A lógica, como disse meu pai, deveria determinar que os pilotos não deveriam correr, já que a equipe foi excluída. Mas a lógica só funciona quando se conhece a política das situações, e também quando se sabe comer pizza. Os italianos da Ferrari devem estar com vontade de perguntar o sabor, mas quem tem telhado de vidro aceita a lógica da mussarela (pior que a reforma ortográfica é o atentado contra a adaptação vocabular que perpetram os dicionaristas dizendo que a palavra italiana deve ser vertida para “moçarela”. Terrível. Prefiro a injustiça social a utilizar tal vocábulo).

différence

A Coca-cola pode ajudar: a diferença entre inteligência e pseudo-inteligência é que quando bebo Dolly Cola ao invés de Coca-cola para fortalecer o mercado nacional de refrigerantes, estou sendo nacionalista de uma maneira pseudo-inteligente, pois a Coca-cola que bebo no Brasil é produzida no Brasil. Nada contra nacionalistas ou contra quem prefere Dolly Cola, mas prefiro seguir o valor estético superior, e prefiro Coca-cola.

and the meek shall inherit the earth

É mais fácil um estúpido entrar no reino dos Céus. O esperto, na hora da entrevista com Deus, perguntaria tantas coisas que acabaria enchendo o saco do soberano, que o mandaria para o Inferno sem escalas. Não há problema. According to Dante, Homero e Ovídio, dois caras espertos, eu diria, estão no Limbo. Ulisses e Diomedes estão mais no fundo; também são pessoas de que não se pode duvidar intelectualmente. Em suma: hoje em dia, os estúpidos vivem em felicidade.

Poema 709

Emily Dickinson, seguramente a maior poetisa estadunidense, jamais publicou um livro de poemas. Supõe-se que tenha publicado alguns versos sob pseudônimo, mas nunca atrelou seu nome a uma publicação. Isso me faz refletir: qual é o valor de publicar poemas, ou contos, ou romances, ou peças? Neste poema, Emily compara o ato de publicar a um leilão:

Publication — is the Auction
Of the Mind of Man –
Poverty — be justifying
For so foul a thing

Possibly — but We — would rather
From Our Garret go
White — Unto the White Creator –
Than invest — Our Snow –

Thought belong to Him who gave it –
Then — to Him Who bear
Its Corporeal illustration — Sell
The Royal Air –

In the Parcel — Be the Merchant
Of the Heavenly Grace –
But reduce no Human Spirit
To Disgrace of Price –

Faz pensar sobre a necessidade de se ver impresso o próprio nome em uma capa, não?

sempre há brechas

Vejam aqui primeiro.

***

Acabei tirando 10 em 2. Portanto estou livre da obrigação, que dizia sobre “um dos trabalhos”.

Blé. Até programei esse post para aproveitar. 365 posts, aí vou eu.

odd reflections about sportsmanship

Como pretenso crítico literário e pretenso literato, não tenho porque não acompanhar a tal da Copa de Literatura Brasileira. Sou muito interessado em esportes, quem me conhece sabe. O termo “copa” vem do latim, como disse o Ed, mas relembro que a grande conotação é a idéia de um torneio “mata-mata”, ou seja, jogos eliminatórios até a grande final - mesma estrutura dos play-offs da NBA e da NFL, da segunda fase da Libertadores da América, da Champions League e de toda a Copa do Brasil. Como vêem, meu interesse em esportes é alto. Em literatura também, mas como é uma “Copa”, vou prestar mais atenção na questão do esporte.

Façamos uma análise estrutural, sem quaisquer conotações estéticas. A CLB (chamarei por uma sigla, ok?) apresenta uma estrutura com 16 participantes, os quais se enfrentam em eliminatórias simples, sem direito à repescagem. Um jurado por vez decide o resultado, exceto na final, onde todos irão dar seu voto. Portanto, trata-se da disputa entre dois romances (lançados obrigatoriamente no ano passado) que terão o voto de um jurado para passar adiante.

O processo guarda semelhanças com o boxe olímpico, onde não há nocaute (salvo casos cruéis, qualquer dia ponho um vídeo aqui). Há apenas soma de pontos, dados por juízes. Quando há um golpe, os juízes devem decidir se foi válido. Caso três, ao mesmo tempo, achem válido, o ponto é validado. Caso contrário, necas. No caso da CLB, só há um juiz, tornando as decisões mais identificáveis.

Fiquemos com as regras. Mas é aí que embanana: não há regras. Cada jurado faz as suas. Hum. Imagino que os encontros foram decididos por sorteio (mesmo que não fossem, como não há prêmio, não há risco de manipulação). Ok. Aí encasqueta: que raio de Copa é essa que possui diferentes critérios de julgamento de cá para lá? No boxe, no basquete e no futebol, as regras são as mesmas no mundo todo, com variações raríssimas; aqui as regras mudam a cada jogo.

A própria organização coloca um dos objetivos como “mostrar o processo por inteiro”, ou seja, privilegia a exposição do julgamento de valor feito em cada “disputa”. Além disso, outro objetivo é “dar voz e espaço a cada jurado para explicar sua escolha”. Mais do que isso, eu diria. É dar somente a posição pessoal de cada jurado em cada partida - aqui, a máxima futebolística do “cada jogo é um jogo” faz total sentido.

A Copa não perde interesse por isso; o interessante, a meu ver, não será discutir os vencedores, e sim discutir os critérios específicos de cada um dos jurados. A exposição é um risco duplo: pode-se expor um ser feio, pode-se expor mais do que o desejável.

O primeiro jogo já ocorreu, e Renata Miloni foi a jurada, na disputa entre Mãos de cavalos e Por que sou gorda, mamãe?. O segundo, com jurisdição de Jefferson Maleski, entre Memorial de Buenos Aires e O adiantado da hora, foi hoje. Exercitarei minha boa vontade e tentarei ler os livros que estão no caminho da taça, para depois ler as opiniões de cada jurado. Será difícil: para minha surpresa, nenhum dos livros concorrentes está no acervo da biblioteca da USP, a única à qual tenho acesso; mas como sou um leitor incorrigível, talvez até leia um ou dois.

No entanto, não acho nada simpática a tal idéia da Copa: todo esporte tem regras bem claras e objetivos bem definidos para obter sucesso. Por que associar a literatura, que não possui nenhuma das duas coisas, a algo tão antitético? Fins de marketing? Bom, se fossem, a sobriedade de um concurso com as mesmas características, mas sem o nome “Copa” e o ranço de competição sem regras, talvez fosse mais eficiente mercadologicamente. Fins de diversão? Se sim, ok, mas eu já me diverti demais jogando Winning Eleven, Knockout Kings e coisa e tal. Se precisar de mais uma dose, meu Playstation está logo ali. Fins de sei-lá-o-quê? É, parece que sim.

A idéia foi tirada dos americanos. Estes sim, vêem competitividade em tudo. Mas nem é esse o problema; a meu ver, está mais embaixo. É achar que, por sua diversidade e riqueza, a literatura comporta tudo; talvez comporte muita coisa, mas jamais tudo. Pois “tudo” significa “muita coisa vulgar no meio”: e a literatura sobrevive, basicamente, do que é muito bom. O “quase bom” se dissolve e some.

Brecht conta:

“Gorelik esteve aqui ontem, com um producer-writer de nome Auerbach, um americano que ele tem em razoável conta. Winge narra a trama do KK [Der kaukasiche Kreidekreis, peça de Brecht]. Gorelik faz perguntas sobre o sentido, depois tentam criticar a construção. Onde está o conflito, a tensão, carne e sangue etc. etc.? Tento falar da construção complicada e engenhosa de Hamlet, so what, “e daí que Hamlet não tem construção?” (o que será que Moss Hart entende por construção?). Ao entrarem no carro com Winge, dizem: “ele nunca vai fazer sucesso. Não sabe suscitar emoções, não há nenhuma identificação, e aí ele faz uma teoria sobre isso, he is crazy and gets worse”. A prostituição desses “artists” é completa. A puta vende o “efeito” nu e cru, é bem paga para isso, uma vez que o cliente é impotente. O interesse que o público parece dedicar à vida é idêntico ao do usurário, devia chamar-se “juros”.”

Texto de Bertolt Brecht em seu diário, quando houve dificuldades para fazer os produtores do teatro americano aceitarem sua peça (O círculo de giz caucasiano) “sem emoções”. Mudei algumas coisinhas no texto, como acentuação. Grifos meus.

utilidade temporária

“Será que alguém realmente acredita que um blog presta para alguma coisa? Eu não acredito. Se escrevo, é mais por esporte.” Tá até aí, nada de incomum. Muitas pessoas assinariam embaixo desta frase, mesmo não acreditando. É chique achar-se inútil. Eu não quero ser chique. Se alguém lê o blog, e acha que valeu a pena, provavelmente está enganado: mas não sou eu quem vai provar. A pessoa que leia quantas vezes quiser; em alguma das vezes vai parar de ler isso aqui e correr para os braços de Pablo Neruda ou algo que o valha. E eu, quando for algo que o valha, estarei em livro.

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