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another reflection

A obra de arte tornou-se ao mesmo tempo objeto de consumo e de reflexão. Para satisfazer a dupla demanda, forjou-se um Frankestein enorme, composto de diversos ideais aparentemente inofensivos: abertura da obra a sentidos e interpretações os mais diversos e contraditórios possíveis; quebra estilística, que faz com que não existam formas certas ou erradas; atenção ao admirador da arte, ou seja, compromisso comunicativo; incorporação do imaginário pop à lista de possibilidades da arte. Oras, cada idéia possui em si problemas graves. Vejamos quantos:

- a abertura da obra se dá, hoje em dia, basicamente por uma ausência, a priori, de significado. Esta ausência ocorre principalmente porque o artista não tem capacidade nem mesmo para se iludir de um significado em particular; acredita piamente que a arte não precisa de significado intencional, e por isso nem mesmo pensa enquanto faz a obra (ou, se pensa, o faz muito mal).

- a quebra estilística é o único meio de evitar o esgotamento de uma forma em específico, mas apenas da forma enquanto forma. Se eu traduzir Machado de Assis para o miguxês não haverá uma revolução do romance; na verdade, haverá somente uma hermetização inicial da linguagem que não altera o sentido. Vender deste modo uma obra como revolucionária, sendo que esta só transporta os clichês para uma nova linguagem, é algo de tão desonesto quanto vender cerveja em lata de refrigerante.

- toda obra de arte tem uma função comunicativa (principalmente quando publicada), mas só os medíocres se preocupam no tamanho do alcance logístico. As simplificações que decorrem da tentativa de dizer algo a todos acabam por limitar a arte de modo tão sufocante que ela já surge natimorta.

- por fim, o pior de todos os procedimentos: incorporar a cultura pop à obra. Naturalmente é a desculpa perfeita para erros de linguagem, opções absurdas e formulações abaixo da crítica. O artista diz que a obra possui elementos da cultura pop quando não passa de mais um produto (e de qualidade reduzida) desta cultura – é quando a metonímia faz o caminho inverso, e ao invés da obra conter o pop, na verdade o pop é que a contém.

Eu nem fui longe o suficiente, em parte por não ter preparo para tal. Mas só o que escrevi já deveria ser o bastante para quem ainda engana aos outros (e a si mesmo) a respeito de ser um artista. É louvável que se tente algo de tão nobre, mas para uma postura nobre é necessário pensar um pouco aristocraticamente. E isso significa: refletir sobre o que se está dizendo na obra, garantir que o estilo adotado não seja apenas um maneirismo decadente, impedir que a busca pelo sucesso se torne limitação e, principalmente, assumir os pecados cometidos e não jogar a responsabilidade para a incapacidade dos críticos de compreenderem a beleza de um sistema que é tudo, menos belo. Em suma: saber que existem valores estéticos. É a única profissão de fé a que o artista nunca escapa.

Isso tudo é o básico para alguém que queira fazer arte – inclusive para mim. Eu mesmo não respeitei, e não respeito, muitos pontos destes princípios; inclusive, este desrespeito (por vezes inconsciente) é um grande motivo da falta de qualidade da maioria esmagadora de minhas obras. Pelo menos ainda não tentei vender nenhuma delas, e duvido que faça isso tão cedo.

6 Responses to “another reflection”

  1. on 15 Sep 2007 at 5:24 pmiulo

    sobre um dos últimos posts, moçarela não. por favor. seria muito feio

  2. on 17 Sep 2007 at 9:31 amEd

    Você é um frankfurtiano moderado.

  3. on 17 Sep 2007 at 2:49 pmVinícius

    Eu diria algo como um romântico moderado.

  4. on 18 Sep 2007 at 3:38 pmEd

    Os frankfurtianos são românticos, poxa.

  5. on 18 Sep 2007 at 7:00 pmVinícius

    Sim. Mas deixe-me fantasiar um caminho mais puro, sem mediações.

  6. on 20 Sep 2007 at 8:45 amEd

    =]

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