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odd reflections about sportsmanship

Como pretenso crítico literário e pretenso literato, não tenho porque não acompanhar a tal da Copa de Literatura Brasileira. Sou muito interessado em esportes, quem me conhece sabe. O termo “copa” vem do latim, como disse o Ed, mas relembro que a grande conotação é a idéia de um torneio “mata-mata”, ou seja, jogos eliminatórios até a grande final - mesma estrutura dos play-offs da NBA e da NFL, da segunda fase da Libertadores da América, da Champions League e de toda a Copa do Brasil. Como vêem, meu interesse em esportes é alto. Em literatura também, mas como é uma “Copa”, vou prestar mais atenção na questão do esporte.

Façamos uma análise estrutural, sem quaisquer conotações estéticas. A CLB (chamarei por uma sigla, ok?) apresenta uma estrutura com 16 participantes, os quais se enfrentam em eliminatórias simples, sem direito à repescagem. Um jurado por vez decide o resultado, exceto na final, onde todos irão dar seu voto. Portanto, trata-se da disputa entre dois romances (lançados obrigatoriamente no ano passado) que terão o voto de um jurado para passar adiante.

O processo guarda semelhanças com o boxe olímpico, onde não há nocaute (salvo casos cruéis, qualquer dia ponho um vídeo aqui). Há apenas soma de pontos, dados por juízes. Quando há um golpe, os juízes devem decidir se foi válido. Caso três, ao mesmo tempo, achem válido, o ponto é validado. Caso contrário, necas. No caso da CLB, só há um juiz, tornando as decisões mais identificáveis.

Fiquemos com as regras. Mas é aí que embanana: não há regras. Cada jurado faz as suas. Hum. Imagino que os encontros foram decididos por sorteio (mesmo que não fossem, como não há prêmio, não há risco de manipulação). Ok. Aí encasqueta: que raio de Copa é essa que possui diferentes critérios de julgamento de cá para lá? No boxe, no basquete e no futebol, as regras são as mesmas no mundo todo, com variações raríssimas; aqui as regras mudam a cada jogo.

A própria organização coloca um dos objetivos como “mostrar o processo por inteiro”, ou seja, privilegia a exposição do julgamento de valor feito em cada “disputa”. Além disso, outro objetivo é “dar voz e espaço a cada jurado para explicar sua escolha”. Mais do que isso, eu diria. É dar somente a posição pessoal de cada jurado em cada partida - aqui, a máxima futebolística do “cada jogo é um jogo” faz total sentido.

A Copa não perde interesse por isso; o interessante, a meu ver, não será discutir os vencedores, e sim discutir os critérios específicos de cada um dos jurados. A exposição é um risco duplo: pode-se expor um ser feio, pode-se expor mais do que o desejável.

O primeiro jogo já ocorreu, e Renata Miloni foi a jurada, na disputa entre Mãos de cavalos e Por que sou gorda, mamãe?. O segundo, com jurisdição de Jefferson Maleski, entre Memorial de Buenos Aires e O adiantado da hora, foi hoje. Exercitarei minha boa vontade e tentarei ler os livros que estão no caminho da taça, para depois ler as opiniões de cada jurado. Será difícil: para minha surpresa, nenhum dos livros concorrentes está no acervo da biblioteca da USP, a única à qual tenho acesso; mas como sou um leitor incorrigível, talvez até leia um ou dois.

No entanto, não acho nada simpática a tal idéia da Copa: todo esporte tem regras bem claras e objetivos bem definidos para obter sucesso. Por que associar a literatura, que não possui nenhuma das duas coisas, a algo tão antitético? Fins de marketing? Bom, se fossem, a sobriedade de um concurso com as mesmas características, mas sem o nome “Copa” e o ranço de competição sem regras, talvez fosse mais eficiente mercadologicamente. Fins de diversão? Se sim, ok, mas eu já me diverti demais jogando Winning Eleven, Knockout Kings e coisa e tal. Se precisar de mais uma dose, meu Playstation está logo ali. Fins de sei-lá-o-quê? É, parece que sim.

A idéia foi tirada dos americanos. Estes sim, vêem competitividade em tudo. Mas nem é esse o problema; a meu ver, está mais embaixo. É achar que, por sua diversidade e riqueza, a literatura comporta tudo; talvez comporte muita coisa, mas jamais tudo. Pois “tudo” significa “muita coisa vulgar no meio”: e a literatura sobrevive, basicamente, do que é muito bom. O “quase bom” se dissolve e some.

10 Responses to “odd reflections about sportsmanship”

  1. on 09 Sep 2007 at 10:53 amRenata Miloni

    É só um formato. Se fosse outro nome e outro formato, reclamariam do mesmo jeito. É incrível isso.

  2. on 09 Sep 2007 at 4:37 pmEd

    Evitei a fadiga ao escolher não tratar mais dessa copa; do contrário eu correria o risco de ser atacado nas ruas. Os jurados, a Renata especialmente, parecem colocar a alma no negócio, e críticas são muito, muito, err, mal vistas.

    Eu não entendo nada de esporte, mas isso aí você disse é certo. But, whatever — let it be.

  3. on 10 Sep 2007 at 1:43 pmVinícius

    Renata, quando os biscoitos não cabem direito na embalagem de biscoitos, quem está errado? O biscoito, que é grande demais? A embalagem, muito pequena? Ou quem observa a incompatibilidade e a considera equivocada?

  4. on 11 Sep 2007 at 7:47 amRenata Miloni

    Bela analogia, Vinícius. Só que, para mim, ainda não é um argumento válido.

    Mas tudo bem. Reclamem. Não sou eu quem vai convencer quem quer que seja que é apenas um formato e que é apenas para falar de livros. Continuo surpresa com a seriedade que dedicam a tudo isso.

  5. on 11 Sep 2007 at 4:43 pmEd

    A “seriedade” é nossa mesmo?

  6. on 11 Sep 2007 at 5:41 pmVinícius

    Quem está sendo sério compara com biscoito?

  7. on 12 Sep 2007 at 8:05 amRenata Miloni

    A insistência demonstra isso. Ah, perder tempo analisando algo que nem faz sentido para vocês também me faz pensar assim. Parece até que tem uma bela importância aos dois. Estou errada, não? Então deixem como está. Se é tudo ridículo para vocês, ó gênios, deixem assim, oras.

    Mas o engraçado é que, mesmo não gostando, vocês acompanham tudo.

  8. on 12 Sep 2007 at 1:32 pmVinícius

    A Copa não perde interesse por isso; o interessante, a meu ver, não será discutir os vencedores, e sim discutir os critérios específicos de cada um dos jurados. A exposição é um risco duplo: pode-se expor um ser feio, pode-se expor mais do que o desejável.

    (Eu mesmo, falando sobre o que considero interessante na tal da Copa - algo que não tem nada a ver com seus equívocos. Uma coisa imperfeita também pode ser vista.)

    Queria que você reparasse na minha honestidade: não li nenhum dos livros que estão sendo julgados, e portanto não fiz comentário algum sobre sua resenha crítica sem ter lido os livros julgados - postura de que você reclamou em seu blog, digamos, com acerto. Não critico o que não conheço, e li atentamente a proposta da Copa para compreendê-la e posicionar-me. Talvez o fato de eu ser conhecido (virtual) do Ed tenha obnubilado seus sentidos e faça você pensar que estamos num complô contra a Copa.

    ***OK, estamos. Somos a militância chata que irá destruir todas as iniciativas legais, e vamos conseguir isso fazendo posts crudelíssimos em nossos blogs - mal consigo mensurar o quanto somos maus.***

  9. on 12 Sep 2007 at 3:04 pmRenata Miloni

    Nossa, hein. Parabéns.

  10. on 16 Jan 2008 at 9:51 amEd

    Ha ha ha, juro que só estou vendo estes últimos comentários hoje. A Miloni é uma moça nervosa.

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