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Lear e o Sábio

Reler Rei Lear é um prazer acima da média dos prazeres estéticos, tão bem-vindos: mas encarar a sabedoria do Bobo é algo que me deixa pasmo, visto que, por vezes, acredito que eu seja sábio. Deveriam restringir a sabedoria apenas a algumas pessoas, para que pudéssemos consultá-las quando necessitados; e às outras, poderíamos falar de nossos medos, inseguranças e tragédias sem que lições pretensamente edificantes fossem disparadas contra nós. As pessoas até podem ser muito sábias dentro de si; mas quando resolvem concatenar sua sabedoria e expressá-la, seja em atitudes ou em quaisquer idiomas, falham desastrosamente na maioria das vezes.

Não é o caso deste Bobo:

Mark it, nuncle:
Have more than thou showest,
Speak less than thou knowest,
Lend less than thou owest,
Ride more than thou goest,
Learn more than thou trowest,
Set less than thou throwest,
Leave thy drink and thy whore
And keep in-a-door,
And thou shalt have more
Than two tens to a score.

[King Lear, I, 4]

Em português, algo como “Anota aí, tio: guarda mais do que mostras, fala menos do que sabes, empresta menos do que tens, anda mais a cavalo do que a pé, aprende mais do que acreditas, aposta menos do que tens, larga a bebida e a mulherada, mantém-te em casa e então terás mais que duas dezenas para contar”.

Pode parecer apenas mais uma dessas vidas saudáveis que pregam hoje em dia, mas há que se considerar o fato de, cenas antes, Lear ter dividido e entregado seu reino a suas filhas Goneril e Regan (expulsando Cordelia). Ao invés de pregar um estilo de vida, o Bobo faz uma bela brincadeira em afirmar que, antes de tudo, Lear precisa amar menos, principalmente suas filhas: as duas o rejeitam.

Em meio à tempestade, já completamente louco, Lear exorta ventos, cataratas, fogos sulfúreos e trovões, a destruir todos os vestígios de sua mal-sucedida existência. O Bobo, então, numa mistura de apelo e pilhéria, desconcerta-nos completamente:

O nuncle, court holy-water in a dry house is better than this rain-water out o’ door. Good nuncle, in, and ask thy daughters’ blessing: here’s a night pities neither wise man nor fool.

[III, 2]

“Tio, água benta numa casa seca é bem melhor que esta água de chuva ao ar livre. Entra, titio, e pede a bênção de tuas filhas: esta noite não tem dó nem de sábios nem de bobos.” Até as coisas sagradas são utilizadas para a brincadeira, algo como preferir a calma dos salões reais à incerteza da vida errante, à qual Lear agora está condenado. A tempestade não perdoa nem ao sábio, nem ao bobo. Mas quem será o bobo entre esses dois?

Quando chega o fiel Kent, novamente estamos em dúvida:

KENT
Who’s there?
FOOL
Marry, here’s grace and a cod-piece; that’s a wise man and a fool.

[III, 2]

“Quem está aí?”, pergunta Kent, e ouve uma resposta contundente: “Oras, aqui há majestade e uma braguilha; aqui há um sábio e um bobo.”

A mensagem está bem clara agora: é impossível saber qual dos dois é o sábio ou o bobo: em alguns momentos, são indistingüíveis. Mas quem chega a essa conclusão é o Bobo, com sua indeterminância entre aconselhar (algo em que teria sucesso, não fosse a loucura de Lear) e fazer as mais variadas gozações com Lear. Visivelmente, uma sabedoria das melhores, pois não ensina com “didáticas”; aprendamos enquanto os outros riem de nós.

One Response to “Lear e o Sábio”

  1. on 11 Aug 2008 at 4:14 amRafael

    Muito boa essa análise e essa percepção do bobo. Concretizou a minha imagem dele quando li a peça.

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