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Passagem das horas

Daqui há exatas vinte e quatro horas este texto será publicado - é como algo de que sinto falta ainda por haver; dei uma olhada ao meu redor, e naturalmente soube que pouco havia a dizer sobre o tempo que viria: mais um pouco de leitura de John Milton, Guimarães Rosa, quem sabe Dostoiévski; sinto que não posso dizer muita coisa, e mesmo sendo o primeiro dia, tenho consciência de minha inevitável solidão - não sou blogueiro nem nunca o serei: sou apenas a amostra garantida de que a força da auto-ilusão é maior do que se pensa; minhas leituras de blogs alheios, minha navegação por entre dezenas de sites que pretendem dizer algo, tudo isso misturado à minha adoração solitária pela literatura, e a um certo ceticismo quanto à minha sociabilidade, tudo contribui para que este post, inevitavelmente, torne-se inútil; é apenas uma forma de saber, no fim do dia em que iniciarei o blog, que não adianta buscar um sentido: Berman argutamente chamou seu livro de All That Is Solid Melts Into Air - são assim meus motivos para um blog: dissolvem-se sempre; mas enquanto programo este post, penso que alguns outros posts serão publicados, outros programados, alguns planejados, intuídos, percebidos, até o momento da publicação deste; meditando sobre a efemeridade das mensagens - destes Relances - que insistentemente lançarei neste lugar virtual, descubro que a única certeza que irá restar após o fim de tudo é a certeza de que tive a chance de algo; não desperdiçar a possibilidade, eis um bom motivo.

One Response to “Passagem das horas”

  1. on 27 Jul 2007 at 7:54 amEd

    Posts planejados previamente? Para quem não é blogueiro, você está até bem profissional=]

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