Posts RSS Comments RSS 61 Posts and 87 Comments till now

Archive for July, 2007

Eloqüência satânica

John Milton é o exemplo do poeta que passa por nossa mente como um toque de trombetas, exortando-nos à guerra iminente; Satã já sabe onde será seu quartel-general, e será em sua mente, que é o Inferno em si mesma:

“Is this the Region, this the Soil, the Clime,
Said then the lost Arch-Angel, this the seat
That we must change for Heav’n, this mournful gloom
For that celestial light? Be it so, since he
Who now is Sovran can dispose and bid
What shall be right: fardest from him is best
Whom reason hath equald, force hath made supream
Above his equals. Farewel happy Fields
Where Joy for ever dwells: Hail horrours, hail
Infernal world, and thou profoundest Hell
Receive thy new Possessor: One who brings
A mind not to be chang’d by Place or Time.
The mind is its own place, and in it self
Can make a Heav’n of Hell, a Hell of Heav’n.
What matter where, if I be still the same,
And what I should be, all but less then he
Whom Thunder hath made greater? Here at least
We shall be free; th’ Almighty hath not built
Here for his envy, will not drive us hence:
Here we may reign secure, and in my choyce
To reign is worth ambition though in Hell:
Better to reign in Hell, then serve in Heav’n.
But wherefore let we then our faithful friends,
Th’ associates and copartners of our loss
Lye thus astonisht on th’ oblivious Pool,
And call them not to share with us their part
In this unhappy Mansion, or once more
With rallied Arms to try what may be yet
Regaind in Heav’n, or what more lost in Hell?”

[Paradise Lost, Book I, 242-270]

E uma tradução ainda incompetente, feita por mim:

“Esta é a região, o solo e o clima”,
diz o perdido arcanjo, “nosso fado.
Renegamos aos Céus e à luz celeste
Por um triste crepúsculo? Que seja;
Quem reina agora os Céus decidirá
O que é certo: melhor mui longe dele,
Cuja força destrói-nos e suprime
Nossa razão. Adeus, felizes campos,
Onde a Graça repousa; Salve, horrores!
Salve, mundo infernal; profundo Inferno,
Receba teu Senhor: este que porta
Mente imutável p’ra Lugar ou Tempo.
A mente é, em si, Lugar: pode em si mesma
Do Inferno, Céu fazer; do Céu, Inferno.
Importa onde, se sempre serei o mesmo?
Posso ser tudo, e então jamais serei
O que os Trovões fizeram poderoso.
Aqui, seremos livres; Deus não fez
Tal lugar invejável; nunca irá
Expulsar-nos; seguros reinaremos.
Bela ambição reinar, mesmo no Inferno:
Melhor reiná-lo que servir aos Céus.
Mas deixaremos os amigos nossos,
Fiéis sócios e cúmplices na perda,
Jazer no horrendo poço aparvalhados
E não chamá-los a levar sua parte
Nesta infeliz Mansão? Ou mesmo vir
A reunir Armas p’ra tentar reaver
Algo no Céu, ou p’ra perder no Inferno?”

Não se assustem com o inglês, é o do século XVII; nem com a tradução, ainda sou amador.

Lear e o Sábio

Reler Rei Lear é um prazer acima da média dos prazeres estéticos, tão bem-vindos: mas encarar a sabedoria do Bobo é algo que me deixa pasmo, visto que, por vezes, acredito que eu seja sábio. Deveriam restringir a sabedoria apenas a algumas pessoas, para que pudéssemos consultá-las quando necessitados; e às outras, poderíamos falar de nossos medos, inseguranças e tragédias sem que lições pretensamente edificantes fossem disparadas contra nós. As pessoas até podem ser muito sábias dentro de si; mas quando resolvem concatenar sua sabedoria e expressá-la, seja em atitudes ou em quaisquer idiomas, falham desastrosamente na maioria das vezes.

Não é o caso deste Bobo:

Mark it, nuncle:
Have more than thou showest,
Speak less than thou knowest,
Lend less than thou owest,
Ride more than thou goest,
Learn more than thou trowest,
Set less than thou throwest,
Leave thy drink and thy whore
And keep in-a-door,
And thou shalt have more
Than two tens to a score.

[King Lear, I, 4]

Em português, algo como “Anota aí, tio: guarda mais do que mostras, fala menos do que sabes, empresta menos do que tens, anda mais a cavalo do que a pé, aprende mais do que acreditas, aposta menos do que tens, larga a bebida e a mulherada, mantém-te em casa e então terás mais que duas dezenas para contar”.

Pode parecer apenas mais uma dessas vidas saudáveis que pregam hoje em dia, mas há que se considerar o fato de, cenas antes, Lear ter dividido e entregado seu reino a suas filhas Goneril e Regan (expulsando Cordelia). Ao invés de pregar um estilo de vida, o Bobo faz uma bela brincadeira em afirmar que, antes de tudo, Lear precisa amar menos, principalmente suas filhas: as duas o rejeitam.

Em meio à tempestade, já completamente louco, Lear exorta ventos, cataratas, fogos sulfúreos e trovões, a destruir todos os vestígios de sua mal-sucedida existência. O Bobo, então, numa mistura de apelo e pilhéria, desconcerta-nos completamente:

O nuncle, court holy-water in a dry house is better than this rain-water out o’ door. Good nuncle, in, and ask thy daughters’ blessing: here’s a night pities neither wise man nor fool.

[III, 2]

“Tio, água benta numa casa seca é bem melhor que esta água de chuva ao ar livre. Entra, titio, e pede a bênção de tuas filhas: esta noite não tem dó nem de sábios nem de bobos.” Até as coisas sagradas são utilizadas para a brincadeira, algo como preferir a calma dos salões reais à incerteza da vida errante, à qual Lear agora está condenado. A tempestade não perdoa nem ao sábio, nem ao bobo. Mas quem será o bobo entre esses dois?

Quando chega o fiel Kent, novamente estamos em dúvida:

KENT
Who’s there?
FOOL
Marry, here’s grace and a cod-piece; that’s a wise man and a fool.

[III, 2]

“Quem está aí?”, pergunta Kent, e ouve uma resposta contundente: “Oras, aqui há majestade e uma braguilha; aqui há um sábio e um bobo.”

A mensagem está bem clara agora: é impossível saber qual dos dois é o sábio ou o bobo: em alguns momentos, são indistingüíveis. Mas quem chega a essa conclusão é o Bobo, com sua indeterminância entre aconselhar (algo em que teria sucesso, não fosse a loucura de Lear) e fazer as mais variadas gozações com Lear. Visivelmente, uma sabedoria das melhores, pois não ensina com “didáticas”; aprendamos enquanto os outros riem de nós.

Passagem das horas

Daqui há exatas vinte e quatro horas este texto será publicado - é como algo de que sinto falta ainda por haver; dei uma olhada ao meu redor, e naturalmente soube que pouco havia a dizer sobre o tempo que viria: mais um pouco de leitura de John Milton, Guimarães Rosa, quem sabe Dostoiévski; sinto que não posso dizer muita coisa, e mesmo sendo o primeiro dia, tenho consciência de minha inevitável solidão - não sou blogueiro nem nunca o serei: sou apenas a amostra garantida de que a força da auto-ilusão é maior do que se pensa; minhas leituras de blogs alheios, minha navegação por entre dezenas de sites que pretendem dizer algo, tudo isso misturado à minha adoração solitária pela literatura, e a um certo ceticismo quanto à minha sociabilidade, tudo contribui para que este post, inevitavelmente, torne-se inútil; é apenas uma forma de saber, no fim do dia em que iniciarei o blog, que não adianta buscar um sentido: Berman argutamente chamou seu livro de All That Is Solid Melts Into Air - são assim meus motivos para um blog: dissolvem-se sempre; mas enquanto programo este post, penso que alguns outros posts serão publicados, outros programados, alguns planejados, intuídos, percebidos, até o momento da publicação deste; meditando sobre a efemeridade das mensagens - destes Relances - que insistentemente lançarei neste lugar virtual, descubro que a única certeza que irá restar após o fim de tudo é a certeza de que tive a chance de algo; não desperdiçar a possibilidade, eis um bom motivo.

Bad server

Depois de misteriosamente desligar-se e voltar a funcionar, o computador exibiu uma mensagem que me faz, dia após dia, desconfiar dos criteriosos profetas tecnológicos, dizendo mundos sobre a iminente inteligência artificial; como pode, após refazer-se de algo que só pode ser chamado de pane, um pretenso computador pessoal transmitir a mensagem “o sistema recuperou-se de um erro grave”. Se, para sermos inteligentes, precisamos da lógica cartesiana cogito, ergo sum, o computador, para ser inteligente, deveria recuperar-se de sua linguagem desumorada; feita apenas para nerds que a entendem, refestelados em seus cursos e conhecimentos de programação. Enfim, tenho pena de quem não possa rir depois que entrou em pane.

Três notinhas

Apesar deste tempo de Pan, onde brasileiros acreditam que sua pátria evoluiu nos esportes, embora evolua apenas na corrupção dos dirigentes da maior parte das confederações, de futebol e basquete (meus preferidos) incluídas; e acreditam na ilusão de que estamos sediando um evento importante, quando na verdade é apenas um treininho que alguns estadunidenses de segunda grandeza fazem antes das Olimpíadas, deixando boa parte das medalhas com brasileiros; há ainda algo a destacar: na minha opinião, o principal: o tempo fantástico de César Cielo nos 50 metros livres, apenas dois décimos (um piscar de olhos) acima do recorde mundial de Popov; a briga entre Bernardinho e Ricardinho, gerando incerteza na maior máquina de jogar vôlei construída neste século; a genialidade de Marta, craque quase tão formidável quanto os de outrora, quando Pelé, Zico, Didi, Sócrates, Falcão, Gérson, Ademir da Guia e tantos outros jogavam, fazendo do esporte mais popular do planeta também o mais belo.

Feliz lembrança

Quando defrontei-me com a necessidade de escrever o primeiro post deste blog, fui ler um arquivo em que havia digitado projetos de possíveis posts. Não gostei de nenhum. Então entendi: fiz um blog para escrever seja o que for que quiser no momento: e se guardar por algum tempo os posts, inevitavelmente definharão.

Aprovados FUVEST 2008