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Relances

mais um poema

outro poema

Este é ainda mais recente. Fala do verso e suas funções:

***

Um pouco reter
da alma, ínvio
fazer que pode,
com sorte, alívio
às mãos fornecer.

Quem sabe o acorde,
difícil de ouvir,
se faça toante
no canto; ferir
a nota na corda.

A música errante
e o alívio malvindo
são partes do verso,
o nexo, sentido
supremo e distante.

Se o fraco e disperso
desejo sereno
de vida imortal
nem sempre é tão pleno
em mim, recomeço.

Refaço, banal,
meus passos, visões
que tento vencer:
pueris criações
da mente animal.

***

Creio que a primeira estrofe é superior às demais em sentido, enquanto a terceira o é em ritmo e sonoridade. Só quero comentar o esquema de rimas, que veio naturalmente durante a escrita e, por uma questão de simetria e proporção, define uns versos muito mal. Este esquema rímico proporciona o efeito interessante de resgate do primeiro verso quando já se criou outra sonoridade no andamento natural. Talvez outra pessoa possa aproveitar este encaixe, que considero a melhor coisa do poema. A gerência do número cinco é meramente circunstancial: azar do poema o fato deste ter cinco estrofes de cinco versos pentassílabos, pois não programei nenhuma utilidade para a coincidência numérica. buy cialisbuy cialisbuy levitrabuy levitrabuy propeciabuy propeciabuy somabuy somabuy levitrabuy cialisbuy propeciabuy levitrabuy somabuy cialisbuy propeciabuy levitrabuy somabuy cialisbuy levitrabuy propeciabuy soma

um poema

Há muitos dias não tive sequer uma idéia do que postar aqui. Dane-se, pensava eu. Ontem, mexendo nos arquivos, resolvi colocar um ou outro poema escrito. Selecionei os que julgo possuir alguma qualidade, mesmo que não muito evidente (ou, talvez, existente). Gosto desse tom de modéstia, mas sei que soa muito falso, como se quisesse apenas que me dissessem o contrário do que digo. Que diferença faria? Minha opinião e minha avaliação dificilmente irão mudar. Eu só quero saber o que um ou outro vai achar.

Vou começar com o mais recente, feito domingo passado e modificado desde então.

***

Cur quaeris nomen meum?
(Gen, XXXII, 30)

Jacó versus um vulto - toda a noite
se encontram reunidos combatendo
em sombras que misturam seus fantasmas,
espadas tão celestes congregadas.

Mas algo se revela em seu final:
nem combate nem prélio é o que travam;
é dança, incendiando pelo céu
o mito em criação, destemperando
seu ânimo brutal - encenação:

o anjo do Senhor lhe fere o fêmur,
e Jacó, sem derrota nem vitória
descerra seu futuro, em ferimento
inaugurado, estranho novo reino,
agora não mais filho, patriarca
em novo nome ungido - Israel.

***

Não tem nome mesmo. A coisa mais difícil para mim é sempre inventar um nome. Sabe aquele medo de ser óbvio? Tenho esse medo em cada verso, mas o título é mais visível. Por enquanto, esta pequena peça fica sem.

ainda sobre Dostoiévski

Falei de O Idiota aqui há um tempinho. No dia, citei um trecho que falava sobre o homem inteligente comum, que não é genial e é corroído pela dúvida - será que serei gênio algum dia? Quem me conhece sabe que vi refletido meu retrato, embora tenha superado parte da questão. Nos últimos dias, outra coisa referente a esse livro me inquieta. Trata-se do príncipe Míchkin. Sim, é o idiota do título: sofreu de uma grave doença mental, passou um tempo fora da Rússia para se tratar. Entretanto, o consideram idiota por outro motivo: sua bondade imensa, beirando os níveis mais terríveis da ingenuidade.

O personagem foi calcado em Jesus Cristo e Dom Quixote - é realmente um misto dos dois. Quem já leu romances russos sabe o quanto há discussões, brigas e desentendimentos. Os personagens passam da cordialidade seca para a raiva espumante em questão de poucas linhas. A exceção patética é o príncipe: praticamente incapaz de se zangar com quer que seja, tem seu momento máximo de exaltação ao defender a religião russa ortodoxa (contra o catolicismo, que identificava como corrupção moral). No resto do romance, faz tudo em prol da compreensão e da bondade, além de uma abnegação sem limites. É incapaz de pensar mal sobre qualquer um, acredita no que lhe é dito e trata a todos como criaturas sinceras. Tem um grande poder de observação, que lhe garante intimidade imediata com os dramas de seus conhecidos, mas esse poder se restringe às porções caridosas de observação. Para ele, onde há perfídia há também a possibilidade de salvação.

Lamento os que não leram, mas para entender minha proposição, preciso contar o fim do romance (que eu, inadvertidamente, já havia lido na orelha de minha edição: não prejudicou minha surpresa, como verão). O príncipe acaba sofrendo mais uma vez com o abandono de sua amada, pouco antes do casamento. Esta mulher já havia se desgraçado, praticamente por opção própria, e, apesar do amor que tinha pelo príncipe, julgava-se indigna de pessoa tão boa. Logo, fugir com um amante foi a alternativa. Míchkin, resignado, resolveu procurá-los (conhecia o amante e tinha-lhe certa afeição, muito embora quase tenha sido assassinado por ele). Quando encontra, a mulher está morta, assassinada pelo amante.

O príncipe fica abalado, mas consegue segurar-se. Resolve dormir junto com seu rival e assassino da amada, esperando pela chegada da polícia. Rogójin (o amante) consegue, depois de um tempo, adormecer praticamente nos braços de Míchkin, que afaga carinhosamente seus cabelos. Nada mais ocorre no romance: Míchkin, em estado catatônico, volta ao tratamento pior do que da primeira vez. Rogójin é preso e condenado a trabalhos forçados.

Muitas pessoas não aceitaram este final, julgando-o inverossímil ao extremo. Tenho para mim que sou como Míchkin, sem suas grandes qualidades. Esta última demonstração de carinho antes do desligamento completo do mundo, antes do enlouquecimento, é o tipo de ação que consigo visualizar para minha pessoa. Não me sinto, entretanto, tão bom quanto Míchkin; invadido pela maldade inerente a todo ser humano, só conseguiria perdoar uma pessoa tão vil se fosse meu último ato, e mesmo assim não seria um perdão completo, incondicional: nasceria do desejo de ser bom. Todo ser humano tem esse desejo, e talvez fosse a vontade de Míchkin. Entretanto, ao atingir o nível mais profundo de sinceridade desprendida e bondosa, não pode mais fazer parte de nosso mundo. O sanatório é seu lugar. O meu ainda é o mundo, e sou alheio ao próprio bem que porventura faço - não redime, embora console.

I’ve felt proud only at the end

Eu já havia lido Song of Myself antes (lá vou eu, falando de Whitman de novo… Isso porque eu deveria estar estudando Neruda. Mas estou, e não digo isso obliquamente), mas foi curioso reler esta passagem depois do último post:

(…)
Have you practis’d so long to learn to read?
Have you felt so proud to get at the meaning of poems?

Stop this day and night with me and you shall possess the origin of all poems,
You shall possess the good of the earth and sun, (there are millions of suns left,)
You shall no longer take things at second or third hand, nor look through the eyes of the dead, nor feed the spectres in books,
You shall not look through my eyes either, nor take things from me,
You shall listen to all sides and filter them from your self.

Quase libertador, não fosse tão duro em seus princípios. O tom inicial é de menosprezo gentil, como se estivesse advertindo uma criança: “aprendeu a ler? Achou o sentido dos poemas? Chega mais, meu filho; vamos começar de novo”.

E se propõe a começar de novo e nos ajudar. Se dependêssemos só do texto de Song of Myself inteiro, daria para acreditar que Whitman veio para nos salvar de nós mesmos, convertendo-nos a uma nova realidade. Uma espécie de Juízo Final por meio do eu whitmaniano, que se oferece como companheiro integral a fim de que alcancemos a raiz das coisas, principalmente dos poemas. Na última estrofe, quase é esquecido o desprezo ao homem que se sentia “orgulhoso em chegar ao sentido dos poemas”, em troca de uma atitude que permitirá a esse homem mais do que entender os poemas, mas também ser um deles.

Se é possível acreditar na utopia democrática whitmaniana de que, ao lado dele, podemos possuir todas as coisas e todo o bem que há na terra e no sol, não cabe a mim decidir diretamente. Mas tenho um palpite: ao menosprezar o homem orgulhoso e oferecer-lhe a mão em seguida, Whitman cria um ato genuíno de solidariedade. Cabe ao seu leitor entender a solidariedade, aceitá-la ou rejeitá-la. Uns podem achar belo, mas desconfio que a maioria das pessoas não gostaria de tal ajuda, ou melhor, não acreditaria na ajuda.

Tudo o que eu desejo é acreditar, mas sei que Whitman era também um homem, como eu. Não era o Salvador, por mais que tenha parecido em sua poesia. Entretanto, se ele consegue nos humanizar - e, acreditem, ele realmente sabe como o fazer - merece nosso afeto e consideração. Tenho Whitman como um amigo um pouco distante, a quem escrevo de vez em quando.

nós, os (pretensos) críticos

Nós, os críticos de arte. Sim, me incluo nessa categoria, e coloco entre parênteses o “pretenso” única e exclusivamente para mim, não quero questionar ninguém. Se me incluo é porque, de certa forma, é o fim para que faço faculdade - espero que ninguém faça Letras para ser contista, romancista, poeta, é mais provável que fracasse. Quero ser crítico literário, mas algumas dúvidas persistem.

Li recentemente Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister; recomendo. Goethe nos apresenta Wilhelm, um jovem que acredita possuir vocação para o teatro. Passa mais da metade do livro aperfeiçoando-se na dramaturgia, mas quando finalmente consegue uma atuação magistral (no papel de Hamlet), descobre que sua vocação é um “erro” incentivado por terceiros (a Sociedade da Torre) para que, depois de atingir o topo como ator, Wilhelm se convencesse de que não possuía talento.

Nós não temos uma Sociedade da Torre para mostrar o caminho. Não temos ninguém que diga: “você está errado, mude de sonho”. Ou melhor, até temos, mas não podemos confiar em ninguém tão facilmente. Ninguém nos observou toda nossa vida (como fez a Sociedade com Wilhelm) para saber se tínhamos ou não a chance de ser o que queremos. Ouvimos aos outros com dedicação, mas é impossível garantir que estão certos. Freqüentemente nos enganamos.

Voltando a nós, os críticos. Buscar motivações para nossa atividade literária, de certa forma literatura de segunda mão, é, na minha opinião, desnecessário e até desonesto. Qual a motivação para alguém escrever um romance, um poema? Oras, podemos repetir cada argumento, cada um deles, como se fosse a verdade absoluta. Não responde a principal pergunta: por que escrever sobre um poema, e não um poema? Seria a frustração a maior motivação para um crítico literário?

Sabe, já falei aqui que não tinha mais pretensão como literato. Não mesmo: minha pessoa, Vinícius de Melo Justo, não precisa nem pode precisar fazer literatura para viver tranqüilo. Já acreditei ser necessário; eram apenas vontadezinhas auto-infligidas. Desejo de repetir o sucesso estético de outros, ou melhor, fazer o meu próprio sucesso. Para onde isso me leva? Lugar nenhum.

Mas e a crítica? Aí entramos em outro terreno. Muito curioso, por sinal. E remonto a outra leitura: O Ano da Morte de Ricardo Reis. Gosto muito de Saramago, não sei porquê. Ele é bom, mas tinha tudo para me desagradar de algum jeito. Um dia eu explico isso melhor. Voltando.

Durante a leitura do livro, senti várias coisas estranhas. A primeira foi uma necessidade de parar de ler o livro no meio de uma frase e imaginar. Imaginei Saramago, sentado em uma cadeira, apoiando o corpo sobre uma escrivaninha onde rabiscava um trecho do livro. Ele não incluiu o trecho no livro. Retirou. Eu soube o que ele escreveu na hora, mas quando fui ler de novo, vi que não estava no lugar exato onde deveria estar, no meio daquela frase. Aos poucos a frase rabiscada se apagou na memória.
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Eu devia falar assim sobre um livro? Não, eu deveria sobriamente analisar a composição do livro e dizer se ele é ou não bom. Mas só senti necessidade de falar sobre o livro depois de imaginar Saramago riscando um trecho que só eu e ele lemos do livro, um trecho óbvio, mal escrito, justamente retirado. Minha obrigação é escrever esse trecho de novo. Tentar me lembrar. Esse trecho vai ser a primeira frase de um texto sobre o livro.

***

Tem gente que vai rir lendo este texto, pelas mais diversas razões. Ficarei feliz com cada uma das risadas, mesmo que dirigidas à minha pessoa. Para concluir: penso que eu, tendo escolhido falar sobre obras de arte, escolhi também ser pego por elas. Eu só sirvo para fazer bem aos bons autores. Se houver algum grande poeta, eu devo divulgá-lo. Se houver um grande romancista, devo incensá-lo. Minha obrigação é para com eles. Devo escolher os livros certos e sumir, para que outros melhores que eu brilhem.

outra tradução

Walt Whitman é bastante conhecido por seus longos poemas, como Song of Myself, ou When Lilacs Last in the Dooryard Bloom’d. Menos pessoas chegaram a apreciar sua prosa, que não é feita de contos, nem de poemas em prosa: são textos de outro gênero. Walt batizou-os de Specimen Days, um nome apropriado e curioso: traduzível, com alguma perda, por Dias Exemplares. Apresento um dos textos mais curtos dos Specimen Days:

Meeting a Hermit

I found in one of my rambles up the hills a real hermit, living in a lonesome spot, hard to get at, rocky, the view fine, with a little patch of land two rods square. A man of youngish middle age, city born and raised, had been to school, had travel’d in Europe and California. I first met him once or twice on the road, and pass’d the time of day, with some small talk; then, the third time, he ask’d me to go along a bit and rest in his hut (an almost unprecedented compliment, as I heard from others afterwards.) He was of Quaker stock, I think; talk’d with ease and moderate freedom, but did not unbosom his life, or story, or tragedy, or whatever it was.

Segue uma tradução minha:

Encontrando um Ermitão

Achei, em uma de minhas andanças pelas montanhas, um verdadeiro ermitão, vivendo em um ponto solitário, difícil de alcançar, rochoso, de bela vista, em um pedaço de terra de dez metros quadrados. Um homem de jovem meia-idade, nascido e crescido em cidade, fora à escola, viajara por Europa e Califórnia. Encontrei-o uma ou duas vezes na estrada, e passei o tempo do dia tagarelando com ele um tanto; então, na terceira vez, ele me pediu para acompanhá-lo um pouco e descansar em sua barraca (uma honraria quase sem precendentes, como ouvi de outros depois). Era da estirpe Quaker, creio; falou com leve e moderada liberdade, mas não abriu sua vida, ou história, ou tragédia, ou seja lá o que for.

É uma fração, um momento de revelação, que Whitman apresenta o mais serenamente possível. O ermitão é uma figura enigmática que se fixa na mente do leitor apenas por suas características, e não por algo que tenha dito. É Whitman quem acha que havia algo para “abrir”, como a vida, a história, a tragédia. Tal desconfiança reflete-se em sua suposição sobre o ermitão ser um Quaker: talvez Whitman sugira que, nessa situação de isolamento, o ermitão busca esquecer-se dos tristes fatos da vida por meio de uma doutrina de paz e simplicidade, e conseqüentemente não fale sobre certos assuntos pessoais.

relatório de leitura

Parei de ler O idiota na página 518 ao topar com este retrato:

O problema é que o homem “comum” inteligente, ainda que de passagem (e talvez até durante toda a sua vida) tenha se imaginado um homem genial e originalíssimo, mesmo assim conserva em seu coração o vermezinho da dúvida, que chega a tal ponto que o homem inteligente às vezes termina em absoluto desespero; se fica resignado, já o faz totalmente envenenado pela vaidade interiorizada. Pensando bem, quando mais não seja tomamos um extremo: na imensa maioria dessa categoria inteligente de pessoas, a coisa não se dá de maneira tão trágica; ao término dos anos estraga-se mais ou menos o fígado, e é só. Mas, não obstante, antes de aplacar-se e resignar-se, essas pessoas às vezes levam tempo demais fazendo das suas, começando pela mocidade e indo até a idade da resignação, e tudo pelo desejo de originalidade. Verificam-se inclusive casos estranhos: devido ao desejo de originalidade, um homem honesto se dispõe até a cometer um ato vil; acontece até que um desses infelizes, não só honestos mas até bons, providência de sua família, sustenta e alimenta com seu trabalho não só seus familiares mas até estranhos, e o que acontece? Passa a vida inteira sem encontrar a paz! Para ele não é nem um pouco tranqüilizadora nem consoladora a idéia de que ele cumpriu tão bem com suas obrigações humanas; ocorre inclusive o contrário, ela até o irrita: “Eis, dir-se-ia, por que eu desperdicei toda a minha vida, eis o que me atou de pés e mãos, eis o que me impediu de descobrir a pólvora! Não fosse isso, é possível que eu tivesse forçosamente descoberto ou a pólvora, ou a América - ainda não sei com certeza o quê, só sei que forçosamente teria descoberto!”. O mais sintomático nesses senhores é que, ao longo de toda a vida, de maneira nenhuma eles efetivamente conseguem saber ao certo o que exatamente precisam tanto descobrir: a pólvora ou a América? Mas os sofrimentos, as nostalgias do objeto do descobrimento, palavra, estariam à altura de um Colombo ou Galileu.

Dostoiévski somente se esqueceu de divulgar a última esperança do homem acima retratado: este pode, para sempre, acreditar que não lhe é possível saber se foi ou não foi um gênio.

Agora continuarei a ler.

Mais arquivos

Hoje, só “dei um tapa” neste conto e o postei. Espero que gostem.

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